Tributo ao amante fiel

Noite dessas me percebi triste como um passarinho de asa quebrada. Corri até o espelho mais próximo e vi que a situação era precária: nem um brilhinho. E se por fora a situação estava triste, imagine você, que por dentro era um nó triplo de cima a baixo. Pintei os olhos de noite estrelada, passei nos lábios um rosa fim de tarde, resolvi sair.

Fui até a esquina mais laranjada da cidade e encostei-me no balcão. Ele estava ali, me fitando com aquele olhar de âmbar e de mistério. Nessas horas, quando a gente percebe, baixa o olho, fica rósea sem cerimônia. Internamente, contei até três devagarzinho e olhei de volta. Não bastou mais nada para que ele estivesse na minha boca, assim, de graça, em silêncio.

E naquele dia gelado em que nuvenzinhas de fumaça dançam junto das palavras, aqueles braços fortes e quentes abraçaram e esquentaram até a última polegada de pele do meu corpo. Aqueles nós emaranhados na boca do estômago, dissolvidos um a um. Se houvesse a melhor metáfora para descrever a experiência com meu amante, seria a de mergulhar de cabeça na calma piscina de seus olhos cor de mel.

Cada beijo quente e adocicado deixa lá no peito uma fitinha amarrada com sete letrinhas cravejadas: S A U D A D E.

Conhaque! És um belo companheiro de viagem. És silencioso como um vigário em caminho, mas no silêncio que inspiras, como nas noites de luar, ergue-se às vezes um canto misterioso que enleva! Conhaque! Não te ama quem não te entende! não te amam essas bocas feminis acostumadas ao mel enjoado da vida, que não anseiam prazeres desconhecidos, sensações mais fortes! (Álvares de Azevedo – Macário)

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By the sea

Em dias assim, eu quero subir na bicicleta e pedalar pela beira do mar, sem rumo. Quero sentir o vento secar as lágrimas do meu rosto. Eu quero sentir a brisa morna do mar arrebatar cada pensamento.

Eu quero fechar os olhos e ouvir apenas o som das ondas beijando a areia e o bater das asas das aves. E a cada pedalada, cada sopro de ar batendo em meus cabelos, ouço o murmurar de uma palavra que se repete incessantemente. Eu tento decifrá-la. Em vão.

Eu passo por construções abandonadas na beira-mar. Por casas de veraneio fechadas e vazias. Cruzo cães que se divertem na areia, correndo e pulando, felizes. Atravesso o reino inabitado de castelos de areia parcialmente derrubados pela água.

E não são poucos os corações desenhados na areia por algum casal apaixonado pelos quais eu passo. Cedo ou tarde, um a um, todos serão displicentemente apagados pelas ondas. Para que no dia seguinte, novos casais escrevam suas siglas sobre esta folha de papel instável.

Eu também vejo que o mar apaga as minhas pegadas e as marcas deixadas pelos pneus da bicicleta. Eu não sou diferente para que a minha marca não seja esquecida.

O rasante da gaivota para fisgar o peixe que se deixa vislumbrar na crista da onda é o estalo que me faz entender a palavra que se repete. Ela se reproduz ritmada, junto com cada tapa de uma onda estourando em espuma.

Liberdade.

Com a colaboração musical do Alex. 🙂

Platônico

Eu quero poder olhar para você todas as manhãs. E como é boa essa era digital, não é? Não preciso saber da sua agenda e arranjar um compromisso pertinho do restaurante que você almoça todos os dias para sentar em um cantinho e ver de relance seu olhar desconfiado.

Não preciso sair correndo do que estiver fazendo porque sei que em determinado momento, você vai passar na rua e eu vou prender a respiração, me esconder e te seguir com os olhos enquanto você passa.

Não preciso procurar seu nome na lista telefônica e descobrir o seu telefone, para te ligar e ouvir quietinha aqui do outro lado a sua voz. E nem preciso escrever um bilhete anônimo disfarçando a minha letra para colocar na soleira da sua porta.

Eu posso olhar para você todas as manhãs. Eu posso olhar para você todas as tardes. E se der saudade, posso olhar mais um pouquinho a noite, para fixar esses olhos castanhos aqui na minha mente e quem sabe ter um daqueles sonhos premonitórios.

É tão mais fácil amor platônico quanto tudo o que se precisa fazer é visitar o perfil, descobrir uma coisinha a mais a cada dia, sem ser percebida. E eu olho, religiosamente, todos os dias, para me acostumar com o olhar.

Porque a dona sabe o coração que tem, sabe que a garganta fica meio tronxa, não se firma direito o pulso e o rubor vem sem cerimônia. Melhor treinar um pouco, sim?

Preciso te contar!

Fui correndo atrás dela para dar a notícia. Ela tinha que saber de primeira mão. Pensei que não seria difícil encontrá-la. Vasculhei nos cadernos, entre um monte de recados, bilhetes, desenhos, adesivos e rascunhos de cartas de amor.

Verdade. Ela estava do mesmo jeito, quietinha. Deitada no chão da sala, debruçada sobre os cadernos, escrevendo as famosas cartas com aquela letra bonita e arredondada. Na televisão, acompanhava Goo Goo Dolls tocando Iris na MTV.

Encostei no cantinho da porta e devo ter ficado uns 5 minutos observando o cenário com ela ali. Ela parou no meio de uma linha importante da carta e olhou para mim, séria. Engraçado, ela não pareceu surpresa. Mas tinha o olhar curioso. Certamente imaginou que era meio cedo para aquela mulher aparecer por ali.

“O que você quer me contar?”, perguntou meio cética. Ai, a pergunta na cara desse jeito me desarmou. Parei para pensar e vi que me precipitei.

“Nada não, acho que sonhei. Estava passando por aqui e resolvi dar uma olhada em você. Mas quero voltar em breve para te contar, ok?”

Ela suspirou e deu uma risada. Voltou para a carta sem se despedir. E eu acabei indo embora toda sem jeito.

Diagnóstico

– Mocinha, pode tirar os sapatos e sentar ali na maca.
Ela desamarrou os coturnos velhos e sentou-se cansadamente, como se previsse o diagnóstico a ser dado. O velho homem se aproximou munido do estetoscópio, do medidor de pressão e daquele olhar clínico que vê através da pele.
– Respire bem fundo pela boca… Mais uma vez… Agora tussa. Ok. Você pode erguer a manga, sim?
Ela lançava aquele olhar furtivo nas anotações e nos olhos do doutor, como quem tentasse fisgar algo no meio da correnteza. Mas tudo passava tão depressa.
– Tudo bem, doutor, sei que a notícia não é boa.
Ele aquiesceu com os olhos e permaneceu quieto. Abriu a gaveta de arquivos, procurou pelo nome dela com os dedos e retirou uma pasta com os exames antigos. Aquele olhar clínico também trespassava os números nos papéis. Olhava um, conferia no outro. Calmamente. Silenciosamente. Ela estava a ponto de gritar uns bons palavrões esperando o veredito.
– Mocinha, você está curada.
Ela emudeceu e arregalou os olhos, duvidando.
– Pode voltar a tomar seu sorvete.
Continuou muda.
– Pode fazer exercícios novamente, não vai ter problema. Qualquer grande emoção você aguenta.
Ela fez uma cara de incrédula tão engraçada que o doutor deu risada. Ele se levantou e acompanhou até a porta do consultório, despedindo-se com um tapinha no ombro. Aquele tapinha fez escorregar e cair o peso que estava ali nas costas, o que tornou o caminhar bem mais fácil.
Até sorriu de sua própria descrença.

Saquinho de veludo

Ao longo da vida, a menina juntou uma porção de jóias. Herdadas de família, recebidas de presente, compradas e até mesmo encontradas no meio da areia de uma praia vazia. A questão é que aquelas jóias precisavam ser guardadas em algum lugar, pois não dava para usar todas ao mesmo tempo.

Decidiu então o seguinte: guardaria todas as jóias em um saquinho de veludo. E passou a procurar o saquinho ideal para a quantidade de jóias que possuía. O primeiro saquinho parecia bem adequado, usou durante um bom tempo. Mas a costura era frágil, e, se desfazendo, deixava escapar pelos buraquinhos os menores brincos e tarraxas, fazendo-a perder alguns. Ela desfez-se desse saquinho e resolveu procurar outro.

O outro saquinho que encontrou já se mostrava, de início, bem maior que o primeiro. Todinhas as jóias cabiam dentro dele, e as costuras pareciam mais reforçadas. O problema surgiu quando ela percebeu que aquele saquinho era muito grande para suas jóias.

Todas as vezes que queria pegar um brinco, colocava a mão lá no fundo, e ainda assim era difícil de alcançar. Certa vez, virou de ponta cabeça e sacudiu o saquinho para tirar o que precisava. Virou para o lado e o saquinho havia desaparecido. Um mistério.

Sem saquinho por um tempo, ela teve que se virar guardando as jóias dentro das meias e dos bolsos do pijama.

Certa vez achou um saquinho que era a coisa mais linda, mas irritou-se logo no início. Aquele era difícil de abrir. Mas era tão lindo que ela achou que o esforço valeria a pena. Toda vez que queria tirar algo lá de dentro era complicado, ele era ruim de abrir e de fechar. Nem conseguir se livrar do saquinho, cansada de tanta dificuldade de manejo, ela conseguia, pois tirar tudo de lá de dentro foi um sacrifício. Desfez-se do saquinho depois de um tempo, mas alguma coisa acabou ficando lá dentro provavelmente.

Dia desses topou com um saquinho diferente, mas que parecia bem o que ela procurava para suas jóias. Tamanho perfeito, sem problemas para abrir ou fechar, costuras firmes. Era ótimo. Só que uma manhã aquele colarzinho de bailarina enroscou lá no fundo.

Ela puxou, a correntinha não rompeu, mas puxou um fio da costura. Ela tentou arrumar, mas em poucos dias, o saquinho de veludo favorito se desfez inteirinho.

Agora os bolsos do pijama estão meio furados. Talvez seja melhor usar todas as jóias ao mesmo tempo. Ou talvez essas jóias nem sejam mesmo necessárias…

Cheiros da cidade

Ultimamente tenho achado a cidade de Curitiba bem mal cheirosa nas ruas centrais. É uma mistura de poeira, poluição dos veículos, cheio de lixo, cheiro de bueiro, um coquetel de cheiros ruins. A gente se refugia em outros sentidos para ignorar.

Mas, dia desses, aconteceu diferente. Era uma noite agradável de outono, e como tive companhia até metade do caminho, resolvi percorrer a pé um caminho que geralmente faço de ônibus e cruzei a XV de novembro.

Que sorte dei nesse dia. Em pouco menos de três quarteirões fui bombardeada por um festival de cheiros bons. Primeiro teve aquele cheirinho de couro novo exalando da imensa loja de sapatos. E quantos sapatos lindos, que bálsamo no coração aquela lojinha inspirou.

Em seguida, olhando, distraída, as fachadas dos prédios antigos, – aposto que você nunca reparou – quase esbarrei em um carrinho de milho cozido. Que delícia aquele cheiro. Deu vontade de mergulhar de ponta na imensa panela de pressão que exalava as delícias.

Poucos passos depois, um cheirinho bem típico do inverno curitibano, o de gengibre fervido junto com vinho, o quentão – aqui em Curitiba o quentão é feito com vinho. Quem me dera imergir até o pescoço naquele cheiro caloroso e saboroso. Caminhei relutante segurada pela pontinha dos dedos da fumacinha que saída da bebida.

Só me distraí quando topei com o chinês que – por mais incomum que pareça – emana um cheirinho gostoso de pão com queijo na chapa e chocolate quente. Certa vez, gelada pelo vento e rabugenta pela fome parei ali para comer um bauru e um café antes da aula de francês. E quando entrei, disse em claro português: “Entrei aqui porque o cheiro lá na rua está maravilhoso”. Deveria ser a fome, né?

Ali no finalzinho, como se não bastasse a tortura, já que por notar todos esses cheiros, eu desesperadamente estava com fome, tinha ainda a barraquinha de pipoca com bacon, cuja única função é seduzir olfatos em um raio de 30 metros. Desviei e fechei os olhos para não ser seduzida também pela visão.

Antes de chegar ao destino final, tinha um brinde. A banquinha de jornal, ainda aberta, mantinha imutável o seu cheiro. Aquela mistura de doce com papel, que lembra infância. Lembra ganhar revistinha da Turma da Mônica e aquela Maria-mole branca com rosa, que o pai chama de colchão de pernilongo. Lembra aquela banquinha no Fazendinha, que embora vizinha do rio fedido, mantinha o olfato seduzido pelo docinho.

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