Esta não é uma história de amor

Entre uma taça e outra de vinho, ele tentava, em vão, escrever algumas linhas no papel manchado do velho caderninho. Esboçava uma frase, baforava o cigarro, olhava para a noite chuvosa através da janela… Nada. Queria que aquela fosse uma história de amor.
Queria o decadente escritor enxergar os olhos da sua protagonista. Lá ia ela, encolhida como um passarinho caído do ninho, soluçando pela movimentada avenida. Ele queria que aquela fosse uma história de amor.
E aí que depois de beber toda a garrafa do vinho razoavalmente barato – o suficiente para não fazê-lo acordar com dor de cabeça, mas não o isentando da secura matinal na boca – desistiu de escrever a história.
Na manhã seguinte, aquela terça que amanheceu chuvosa e preguiçosa, ele concluiu que não torturaria mais a sua protagonista. Aquela não seria mesmo uma história de amor.
Deixou que ela esperasse naquele mesmo banco, um táxi, naquela manhã chuvosa em que encontrava-se tudo, menos táxis.
Esperou o táxi o tempo suficiente para que, antes de fechar a porta, alguém pudesse lançar uma furtiva olhada na sua direção. Nunca olhava para aquele banco antes de fechar a porta, mas só aquele dia, como quem não quer nada, resolveu olhar.
Dessa vez, quem sabe, pensou o escritor, ele poderia escrever uma verdadeira história de amor.

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A menina e o mar

Certa vez disseram que já estava mais do que na hora de ela conhecer o mar. Naquela manhã meio nebulosa, meio vertiginosa, a decisão veio, sem muita cerimônia. Não criou expectativas. Comprou a passagem, arrumou a mala e partiu, naquela mesma tarde.

A viagem a deixou apreensiva no início. Mas a apreensão passou quando, da janela do ônibus, ela viu o seu azul na outra margem da estrada. Sorriu sem jeito. Era do jeito que ela imaginava. O destino da viagem ainda estava distante, o ônibus ainda viajaria por longas horas pela costa.

Ao longo do trajeto, contemplou pensativa a luz do sol e as gaivotas dançando sobre as ondas. Até que veio a lua, e ela, com a testa grudada no vidro do ônibus, entre uma baforada e outra o embaçando, ouvia o que cada onda contava beijando a areia.

Ela nem percebeu que as horas voavam mais rápido do que as gaivotas rasantes. Quando se deu conta, a lua já se punha e o céu tomava novas cores. Nesse momento, notou que desejava com toda a força que tinha chegar mais e mais perto do mar. Ela precisava.

Desceu do ônibus, deixou a mala no quartinho do hotel, tirou os sapatos e se aproximou, um tanto hesitante. Ela olhava fixamente para ele, sem piscar. Ele se mexia, se remexia, jogava suas ondas na areia. E quanto mais perto ele tentava chegar, mais ela recuava.

Até que ela cedeu. E cada centímetro de sua pele se arrepiou com o toque da água gelada. Ela lembrou-se de que tinha um coração, pois ele esquentou. E sentiu os joelhos como se fossem de gelatina. Enquanto a água penetrava a cada onda na areia, ela deixou seus pés afundarem. Tocou a ponta das ondas com os dedos e levou aos lábios. Quis mergulhar. Quis ser abraçada por cada gota. Mas levantou-se e foi embora, querendo olhar para trás.

Deixou que se passassem algumas semanas. Sentiu saudade, quis voltar, esqueceu. E viajou de volta para lá, decidida. Aquela manhã seria diferente. Ela queria mergulhar naquele mistério, queria ser abraçada pelas ondas frias e violentas. Caminhou decidida até as ondas, que de longe pareciam revoltas. Mas ao se aproximar, ela notou que estavam calmas. Que dançavam conforme a brisa morna da madrugada.

Ela se aproximou e notou que o mar não estava tão gelado como da primeira vez que o tocou. Abriu as mãos e deixou que as ondas atravessassem os vãos entre os dedos. Fechou os olhos e respirou com calma o perfume marinho. Caminhou lenta e firmemente, sendo beijada pelas ondas, até que a água alcançasse a sua cintura. Mergulhou. E como disse o coelho à Alice, aquele momento durou a eternidade de um segundo.

Voltou para a areia e sentou-se onde as ondas podiam acariciar suas pernas de vez em quando. Olhou o mar. Contemplou cada onda, deitando-se na areia, enquanto a maré baixava. Fechava os olhos e respirava fundo, numa tentativa medíocre de gravar o perfume que a maresia trazia, com as mãos apalpando a areia fina.

Ria sozinha, fechando os olhos e espiando novamente, furtiva, certificando-se de que era real. Levantava-se caminhava na areia e voltava para perto do mar. Repetiu inúmeras vezes o mesmo ritual de averiguação. Não restavam dúvidas.

No final da manhã, olhou pela última vez aquele azul fascinante, sorriu consigo mesma. Limpou a areia das mãos e foi embora. Esperava talvez, quem sabe? Outra viagem. Mas sabia ela muito bem que paixões como aquela não durariam mais do que poucos dias.

Tributo ao amante fiel

Noite dessas me percebi triste como um passarinho de asa quebrada. Corri até o espelho mais próximo e vi que a situação era precária: nem um brilhinho. E se por fora a situação estava triste, imagine você, que por dentro era um nó triplo de cima a baixo. Pintei os olhos de noite estrelada, passei nos lábios um rosa fim de tarde, resolvi sair.

Fui até a esquina mais laranjada da cidade e encostei-me no balcão. Ele estava ali, me fitando com aquele olhar de âmbar e de mistério. Nessas horas, quando a gente percebe, baixa o olho, fica rósea sem cerimônia. Internamente, contei até três devagarzinho e olhei de volta. Não bastou mais nada para que ele estivesse na minha boca, assim, de graça, em silêncio.

E naquele dia gelado em que nuvenzinhas de fumaça dançam junto das palavras, aqueles braços fortes e quentes abraçaram e esquentaram até a última polegada de pele do meu corpo. Aqueles nós emaranhados na boca do estômago, dissolvidos um a um. Se houvesse a melhor metáfora para descrever a experiência com meu amante, seria a de mergulhar de cabeça na calma piscina de seus olhos cor de mel.

Cada beijo quente e adocicado deixa lá no peito uma fitinha amarrada com sete letrinhas cravejadas: S A U D A D E.

Conhaque! És um belo companheiro de viagem. És silencioso como um vigário em caminho, mas no silêncio que inspiras, como nas noites de luar, ergue-se às vezes um canto misterioso que enleva! Conhaque! Não te ama quem não te entende! não te amam essas bocas feminis acostumadas ao mel enjoado da vida, que não anseiam prazeres desconhecidos, sensações mais fortes! (Álvares de Azevedo – Macário)

Preciso te contar!

Fui correndo atrás dela para dar a notícia. Ela tinha que saber de primeira mão. Pensei que não seria difícil encontrá-la. Vasculhei nos cadernos, entre um monte de recados, bilhetes, desenhos, adesivos e rascunhos de cartas de amor.

Verdade. Ela estava do mesmo jeito, quietinha. Deitada no chão da sala, debruçada sobre os cadernos, escrevendo as famosas cartas com aquela letra bonita e arredondada. Na televisão, acompanhava Goo Goo Dolls tocando Iris na MTV.

Encostei no cantinho da porta e devo ter ficado uns 5 minutos observando o cenário com ela ali. Ela parou no meio de uma linha importante da carta e olhou para mim, séria. Engraçado, ela não pareceu surpresa. Mas tinha o olhar curioso. Certamente imaginou que era meio cedo para aquela mulher aparecer por ali.

“O que você quer me contar?”, perguntou meio cética. Ai, a pergunta na cara desse jeito me desarmou. Parei para pensar e vi que me precipitei.

“Nada não, acho que sonhei. Estava passando por aqui e resolvi dar uma olhada em você. Mas quero voltar em breve para te contar, ok?”

Ela suspirou e deu uma risada. Voltou para a carta sem se despedir. E eu acabei indo embora toda sem jeito.

Crônica de viagem

Eu me levanto quando a lua ainda resplandece no céu, entre densas brumas e pego o caminho. Carrego-me com tudo o que vou precisar para o dia: um pouquinho de expectativa, uma agenda, umas músicas, abano o sono para espantá-lo.

Não é uma viagem estressante, muito pelo contrário, é feita para se refletir, principalmente porque leituras me causam vertigens. É aquele tempo de retiro: vejo as copas das árvores, vezes cobertas por neblina, outras pálidas de gelo, a grama branquinha, as ovelhas pastando. Lembro de fatos curiosos como a morte súbita de um dos motoristas enquanto dirigia, no meio daquelas estradas tortuosas e esburacadas.

David Gilmour canta algo doce, pensamentos fluem.

Todos os problemas paracem, de repente, tão pequenos, distantes, tão simples. Aquela lembrança ruim, que causava aquele apertinho ruim no fundo do peito se torna banal. Aquela pessoa que rendeu tanto pranto e ranger de dentes ficou lá na civilização, atrás das brumas.

E algumas outras pessoas, inusitadas, parecem insistir no pensamento. Dá vontade de descer, voltar e correr dar um beijo de bom dia.

Eu ainda sou do tempo das gentilezas.

A viagem nem é tão longa, mas os pensamentos flutuam tanto que parecem ter se passado algumas horas. Chega aquela curva que eu conheço, de um lado tem um nada e do outro também, fim da viagem para mim.

Os nerds que me perdoem, mas adoro lidar com carne e osso.

Pas si simple

Algunas veces soy la laguna quieta
Algunas otras el crepúsculo seco
Pero la mayoría soy desierto,
deseo
…y tempestad

Estranha, caminho entre meus sentimentos confusos, ora, um lago calmo e silencioso, outra revolto com a tempestade cinza que o cobre de súbito. Quase o tempo todo sou tempestade. Efusiva, intensa. Me escondo dos outros e de mim mesma no meio da ventania e dos pingos grossos e fortes que richocheteiam gelados em minha face.

Às vezes é como uma paixão, outras, como carinho e algumas outras só tesão… De repente, se transforma em algo como possessividade, suaviza para saudade ou vira desprezo e raiva.

E a intensidade com que me surpreende, ora como uma tormenta terrível ou como uma ventania que precede uma tempestade, ora como uma garoa chata e insistente, que em silêncio me atormenta sem cessar, é algo impressionante.
Não quero lidar com essa tempestade de sentimentos. A aproximação traz as ventanias de volta – o que eu não quero.

Somatizo a tempestade, respiro.

Pas si simple.

Falando mal de mesquinharia

Pois é, fiquei um bom tempo sem postar por um motivo bem plausível.

Não achei nada interessante para escrever… hehe

Talvez em alguma madrugada, em frente ao meu computador, ouvindo Doom Metal e bebendo Coca-Cola tenha surgido alguma idéia na minha cabecinha. Mas fugiu tão rapidamente quanto veio. E hoje finalmente achei algo bom para se falar mal.

Uma das piores coisas que existem na humanidade contemporânea.

Mesquinharia.

Como já diria eu mesma em um momento reflexivo:

Agüento gente falsa, estúpida, mal-comida, mal-educada, gorda e sebosa. Mas não suporto gente mesquinha. Tá bom, gente sebosa (tanto no sentido figurado quanto no sentido literal da palavra, de sebo, ranso mesmo) eu não agüento muito tempo… rsrs

Existem pequenos gestos que as pessoas fazem pela gente que mostram bom coração e empatia. Eu reparo nesse tipo de coisa. Um gesto despreocupado e sem esperar nada em troca, muitas vezes vale mais do que mil tesouros.

Mas existem outros pequenos gestos, nem sempre tão pequenos que mostram o caráter sujo das pessoas. Gestos mesquinhos e de caráter egoísta.

Não vou citar nomes, nem qual foi o gesto. Quem estava junto viu.

Só adianto que não se tratou de nada absurdo, foi apenas um pequeno gesto que mostrou que a pessoa era extremamente mesquinha, unha de fome mesmo.

Pra terminar, só para foder, vou colocar uma tirinha dos Malvados, que remete à uma frase muito inteligente que minha amiga Karen Lisse disse hoje de manhã… heheheh


Por hoje é só.
Beijos à quem merece!! 😉