Esta não é uma história de amor

Entre uma taça e outra de vinho, ele tentava, em vão, escrever algumas linhas no papel manchado do velho caderninho. Esboçava uma frase, baforava o cigarro, olhava para a noite chuvosa através da janela… Nada. Queria que aquela fosse uma história de amor.
Queria o decadente escritor enxergar os olhos da sua protagonista. Lá ia ela, encolhida como um passarinho caído do ninho, soluçando pela movimentada avenida. Ele queria que aquela fosse uma história de amor.
E aí que depois de beber toda a garrafa do vinho razoavalmente barato – o suficiente para não fazê-lo acordar com dor de cabeça, mas não o isentando da secura matinal na boca – desistiu de escrever a história.
Na manhã seguinte, aquela terça que amanheceu chuvosa e preguiçosa, ele concluiu que não torturaria mais a sua protagonista. Aquela não seria mesmo uma história de amor.
Deixou que ela esperasse naquele mesmo banco, um táxi, naquela manhã chuvosa em que encontrava-se tudo, menos táxis.
Esperou o táxi o tempo suficiente para que, antes de fechar a porta, alguém pudesse lançar uma furtiva olhada na sua direção. Nunca olhava para aquele banco antes de fechar a porta, mas só aquele dia, como quem não quer nada, resolveu olhar.
Dessa vez, quem sabe, pensou o escritor, ele poderia escrever uma verdadeira história de amor.

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