A menina e o mar

Certa vez disseram que já estava mais do que na hora de ela conhecer o mar. Naquela manhã meio nebulosa, meio vertiginosa, a decisão veio, sem muita cerimônia. Não criou expectativas. Comprou a passagem, arrumou a mala e partiu, naquela mesma tarde.

A viagem a deixou apreensiva no início. Mas a apreensão passou quando, da janela do ônibus, ela viu o seu azul na outra margem da estrada. Sorriu sem jeito. Era do jeito que ela imaginava. O destino da viagem ainda estava distante, o ônibus ainda viajaria por longas horas pela costa.

Ao longo do trajeto, contemplou pensativa a luz do sol e as gaivotas dançando sobre as ondas. Até que veio a lua, e ela, com a testa grudada no vidro do ônibus, entre uma baforada e outra o embaçando, ouvia o que cada onda contava beijando a areia.

Ela nem percebeu que as horas voavam mais rápido do que as gaivotas rasantes. Quando se deu conta, a lua já se punha e o céu tomava novas cores. Nesse momento, notou que desejava com toda a força que tinha chegar mais e mais perto do mar. Ela precisava.

Desceu do ônibus, deixou a mala no quartinho do hotel, tirou os sapatos e se aproximou, um tanto hesitante. Ela olhava fixamente para ele, sem piscar. Ele se mexia, se remexia, jogava suas ondas na areia. E quanto mais perto ele tentava chegar, mais ela recuava.

Até que ela cedeu. E cada centímetro de sua pele se arrepiou com o toque da água gelada. Ela lembrou-se de que tinha um coração, pois ele esquentou. E sentiu os joelhos como se fossem de gelatina. Enquanto a água penetrava a cada onda na areia, ela deixou seus pés afundarem. Tocou a ponta das ondas com os dedos e levou aos lábios. Quis mergulhar. Quis ser abraçada por cada gota. Mas levantou-se e foi embora, querendo olhar para trás.

Deixou que se passassem algumas semanas. Sentiu saudade, quis voltar, esqueceu. E viajou de volta para lá, decidida. Aquela manhã seria diferente. Ela queria mergulhar naquele mistério, queria ser abraçada pelas ondas frias e violentas. Caminhou decidida até as ondas, que de longe pareciam revoltas. Mas ao se aproximar, ela notou que estavam calmas. Que dançavam conforme a brisa morna da madrugada.

Ela se aproximou e notou que o mar não estava tão gelado como da primeira vez que o tocou. Abriu as mãos e deixou que as ondas atravessassem os vãos entre os dedos. Fechou os olhos e respirou com calma o perfume marinho. Caminhou lenta e firmemente, sendo beijada pelas ondas, até que a água alcançasse a sua cintura. Mergulhou. E como disse o coelho à Alice, aquele momento durou a eternidade de um segundo.

Voltou para a areia e sentou-se onde as ondas podiam acariciar suas pernas de vez em quando. Olhou o mar. Contemplou cada onda, deitando-se na areia, enquanto a maré baixava. Fechava os olhos e respirava fundo, numa tentativa medíocre de gravar o perfume que a maresia trazia, com as mãos apalpando a areia fina.

Ria sozinha, fechando os olhos e espiando novamente, furtiva, certificando-se de que era real. Levantava-se caminhava na areia e voltava para perto do mar. Repetiu inúmeras vezes o mesmo ritual de averiguação. Não restavam dúvidas.

No final da manhã, olhou pela última vez aquele azul fascinante, sorriu consigo mesma. Limpou a areia das mãos e foi embora. Esperava talvez, quem sabe? Outra viagem. Mas sabia ela muito bem que paixões como aquela não durariam mais do que poucos dias.

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Tributo ao amante fiel

Noite dessas me percebi triste como um passarinho de asa quebrada. Corri até o espelho mais próximo e vi que a situação era precária: nem um brilhinho. E se por fora a situação estava triste, imagine você, que por dentro era um nó triplo de cima a baixo. Pintei os olhos de noite estrelada, passei nos lábios um rosa fim de tarde, resolvi sair.

Fui até a esquina mais laranjada da cidade e encostei-me no balcão. Ele estava ali, me fitando com aquele olhar de âmbar e de mistério. Nessas horas, quando a gente percebe, baixa o olho, fica rósea sem cerimônia. Internamente, contei até três devagarzinho e olhei de volta. Não bastou mais nada para que ele estivesse na minha boca, assim, de graça, em silêncio.

E naquele dia gelado em que nuvenzinhas de fumaça dançam junto das palavras, aqueles braços fortes e quentes abraçaram e esquentaram até a última polegada de pele do meu corpo. Aqueles nós emaranhados na boca do estômago, dissolvidos um a um. Se houvesse a melhor metáfora para descrever a experiência com meu amante, seria a de mergulhar de cabeça na calma piscina de seus olhos cor de mel.

Cada beijo quente e adocicado deixa lá no peito uma fitinha amarrada com sete letrinhas cravejadas: S A U D A D E.

Conhaque! És um belo companheiro de viagem. És silencioso como um vigário em caminho, mas no silêncio que inspiras, como nas noites de luar, ergue-se às vezes um canto misterioso que enleva! Conhaque! Não te ama quem não te entende! não te amam essas bocas feminis acostumadas ao mel enjoado da vida, que não anseiam prazeres desconhecidos, sensações mais fortes! (Álvares de Azevedo – Macário)

By the sea

Em dias assim, eu quero subir na bicicleta e pedalar pela beira do mar, sem rumo. Quero sentir o vento secar as lágrimas do meu rosto. Eu quero sentir a brisa morna do mar arrebatar cada pensamento.

Eu quero fechar os olhos e ouvir apenas o som das ondas beijando a areia e o bater das asas das aves. E a cada pedalada, cada sopro de ar batendo em meus cabelos, ouço o murmurar de uma palavra que se repete incessantemente. Eu tento decifrá-la. Em vão.

Eu passo por construções abandonadas na beira-mar. Por casas de veraneio fechadas e vazias. Cruzo cães que se divertem na areia, correndo e pulando, felizes. Atravesso o reino inabitado de castelos de areia parcialmente derrubados pela água.

E não são poucos os corações desenhados na areia por algum casal apaixonado pelos quais eu passo. Cedo ou tarde, um a um, todos serão displicentemente apagados pelas ondas. Para que no dia seguinte, novos casais escrevam suas siglas sobre esta folha de papel instável.

Eu também vejo que o mar apaga as minhas pegadas e as marcas deixadas pelos pneus da bicicleta. Eu não sou diferente para que a minha marca não seja esquecida.

O rasante da gaivota para fisgar o peixe que se deixa vislumbrar na crista da onda é o estalo que me faz entender a palavra que se repete. Ela se reproduz ritmada, junto com cada tapa de uma onda estourando em espuma.

Liberdade.

Com a colaboração musical do Alex. 🙂