Platônico

Eu quero poder olhar para você todas as manhãs. E como é boa essa era digital, não é? Não preciso saber da sua agenda e arranjar um compromisso pertinho do restaurante que você almoça todos os dias para sentar em um cantinho e ver de relance seu olhar desconfiado.

Não preciso sair correndo do que estiver fazendo porque sei que em determinado momento, você vai passar na rua e eu vou prender a respiração, me esconder e te seguir com os olhos enquanto você passa.

Não preciso procurar seu nome na lista telefônica e descobrir o seu telefone, para te ligar e ouvir quietinha aqui do outro lado a sua voz. E nem preciso escrever um bilhete anônimo disfarçando a minha letra para colocar na soleira da sua porta.

Eu posso olhar para você todas as manhãs. Eu posso olhar para você todas as tardes. E se der saudade, posso olhar mais um pouquinho a noite, para fixar esses olhos castanhos aqui na minha mente e quem sabe ter um daqueles sonhos premonitórios.

É tão mais fácil amor platônico quanto tudo o que se precisa fazer é visitar o perfil, descobrir uma coisinha a mais a cada dia, sem ser percebida. E eu olho, religiosamente, todos os dias, para me acostumar com o olhar.

Porque a dona sabe o coração que tem, sabe que a garganta fica meio tronxa, não se firma direito o pulso e o rubor vem sem cerimônia. Melhor treinar um pouco, sim?

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Preciso te contar!

Fui correndo atrás dela para dar a notícia. Ela tinha que saber de primeira mão. Pensei que não seria difícil encontrá-la. Vasculhei nos cadernos, entre um monte de recados, bilhetes, desenhos, adesivos e rascunhos de cartas de amor.

Verdade. Ela estava do mesmo jeito, quietinha. Deitada no chão da sala, debruçada sobre os cadernos, escrevendo as famosas cartas com aquela letra bonita e arredondada. Na televisão, acompanhava Goo Goo Dolls tocando Iris na MTV.

Encostei no cantinho da porta e devo ter ficado uns 5 minutos observando o cenário com ela ali. Ela parou no meio de uma linha importante da carta e olhou para mim, séria. Engraçado, ela não pareceu surpresa. Mas tinha o olhar curioso. Certamente imaginou que era meio cedo para aquela mulher aparecer por ali.

“O que você quer me contar?”, perguntou meio cética. Ai, a pergunta na cara desse jeito me desarmou. Parei para pensar e vi que me precipitei.

“Nada não, acho que sonhei. Estava passando por aqui e resolvi dar uma olhada em você. Mas quero voltar em breve para te contar, ok?”

Ela suspirou e deu uma risada. Voltou para a carta sem se despedir. E eu acabei indo embora toda sem jeito.