Diagnóstico

– Mocinha, pode tirar os sapatos e sentar ali na maca.
Ela desamarrou os coturnos velhos e sentou-se cansadamente, como se previsse o diagnóstico a ser dado. O velho homem se aproximou munido do estetoscópio, do medidor de pressão e daquele olhar clínico que vê através da pele.
– Respire bem fundo pela boca… Mais uma vez… Agora tussa. Ok. Você pode erguer a manga, sim?
Ela lançava aquele olhar furtivo nas anotações e nos olhos do doutor, como quem tentasse fisgar algo no meio da correnteza. Mas tudo passava tão depressa.
– Tudo bem, doutor, sei que a notícia não é boa.
Ele aquiesceu com os olhos e permaneceu quieto. Abriu a gaveta de arquivos, procurou pelo nome dela com os dedos e retirou uma pasta com os exames antigos. Aquele olhar clínico também trespassava os números nos papéis. Olhava um, conferia no outro. Calmamente. Silenciosamente. Ela estava a ponto de gritar uns bons palavrões esperando o veredito.
– Mocinha, você está curada.
Ela emudeceu e arregalou os olhos, duvidando.
– Pode voltar a tomar seu sorvete.
Continuou muda.
– Pode fazer exercícios novamente, não vai ter problema. Qualquer grande emoção você aguenta.
Ela fez uma cara de incrédula tão engraçada que o doutor deu risada. Ele se levantou e acompanhou até a porta do consultório, despedindo-se com um tapinha no ombro. Aquele tapinha fez escorregar e cair o peso que estava ali nas costas, o que tornou o caminhar bem mais fácil.
Até sorriu de sua própria descrença.

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