Cheiros da cidade


Ultimamente tenho achado a cidade de Curitiba bem mal cheirosa nas ruas centrais. É uma mistura de poeira, poluição dos veículos, cheio de lixo, cheiro de bueiro, um coquetel de cheiros ruins. A gente se refugia em outros sentidos para ignorar.

Mas, dia desses, aconteceu diferente. Era uma noite agradável de outono, e como tive companhia até metade do caminho, resolvi percorrer a pé um caminho que geralmente faço de ônibus e cruzei a XV de novembro.

Que sorte dei nesse dia. Em pouco menos de três quarteirões fui bombardeada por um festival de cheiros bons. Primeiro teve aquele cheirinho de couro novo exalando da imensa loja de sapatos. E quantos sapatos lindos, que bálsamo no coração aquela lojinha inspirou.

Em seguida, olhando, distraída, as fachadas dos prédios antigos, – aposto que você nunca reparou – quase esbarrei em um carrinho de milho cozido. Que delícia aquele cheiro. Deu vontade de mergulhar de ponta na imensa panela de pressão que exalava as delícias.

Poucos passos depois, um cheirinho bem típico do inverno curitibano, o de gengibre fervido junto com vinho, o quentão – aqui em Curitiba o quentão é feito com vinho. Quem me dera imergir até o pescoço naquele cheiro caloroso e saboroso. Caminhei relutante segurada pela pontinha dos dedos da fumacinha que saída da bebida.

Só me distraí quando topei com o chinês que – por mais incomum que pareça – emana um cheirinho gostoso de pão com queijo na chapa e chocolate quente. Certa vez, gelada pelo vento e rabugenta pela fome parei ali para comer um bauru e um café antes da aula de francês. E quando entrei, disse em claro português: “Entrei aqui porque o cheiro lá na rua está maravilhoso”. Deveria ser a fome, né?

Ali no finalzinho, como se não bastasse a tortura, já que por notar todos esses cheiros, eu desesperadamente estava com fome, tinha ainda a barraquinha de pipoca com bacon, cuja única função é seduzir olfatos em um raio de 30 metros. Desviei e fechei os olhos para não ser seduzida também pela visão.

Antes de chegar ao destino final, tinha um brinde. A banquinha de jornal, ainda aberta, mantinha imutável o seu cheiro. Aquela mistura de doce com papel, que lembra infância. Lembra ganhar revistinha da Turma da Mônica e aquela Maria-mole branca com rosa, que o pai chama de colchão de pernilongo. Lembra aquela banquinha no Fazendinha, que embora vizinha do rio fedido, mantinha o olfato seduzido pelo docinho.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Alberto
    maio 16, 2011 @ 02:01:19

    Curti demais!!!!!

    (Eu sinto saudade desta cidade muitas vezes, principalmente desta época do ano)

    Responder

  2. helena2004.
    out 25, 2012 @ 14:51:14

    nassa esa cidade e rurm

    Responder

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