Zumbis


Minha primeira impressão dos três supostos zumbis, que continuavam a trabalhar, foi a de que eles tinham realmente alguma coisa de estranho. Seus gestos eram de autômatos […] O mai horrível era o olhar, ou melhor, a ausência do olhar. Os olhos estavam mortos, como se fossem cegos, desprovidos de expressão. Não eram olhos de um cego, mas de um morto. Todo o semblante era inexpressivo, incapaz de expressar-se. Eu havia visto no Haiti tantas coisas que fugiam do senso comum que por um instante tive um surto, quase pânico, no qual pensei, ou senti, “Bom Deus, talvez seja tudo verdade e, se for, é terrível demais, pois isso muda tudo”. Por “tudo” eu me refiro às leis e aos processos da natureza nos quais o pensamento e a ação humana se baseiam. William Seabrook, The Magic Island, 1929, p.24 in Jamie Russel, Zumbis, O Livro dos Mortos, 2010

"Noite dos mortos vivos" - 1968

Você vê aquela mulher? Aquela jovem que, mecanicamente, sem esboçar expressão, tira e coloca os alimentos da chapa ardente. Que veste todas as manhãs o uniforme, prende os cabelos, lava as mãos e não sorri durante nenhum momento de sua rotina. Que acorda cedo ao segundo toque do antigo e barulhento despertador, lava o rosto e se olha no espelho sem realmente se enxergar.

Ao entrar no ônibus cheio, cuida para que não esbarrem na mochila que carrega em um pote seu singelo almoço enquanto avalia se o comprimento de suas unhas não será notado pelo patrão quando ela lavar a louça do restaurante.

Poucas coisas a comovem e a fazem sair de seu torpor como um casal de cegos que canta modinhas sertanejas naquela rua próxima ao seu trabalho. Ou como a mesma moça loira que em limpíssimos trajes brancos cruza a frente do restaurante no momento em que está entrando para trabalhar. O que a faz prestar atenção é a extrema limpeza. Quanta brancura e pureza em uma pessoa só. Pára e olha para as mãos machucadas com os cantos das unhas comidos nos domingos chuvosos.

Uma vez por mês, ela vai até o Shopping Center apenas para observar as vitrines e pessoas. Sozinha, se dá o luxo de comprar um pacote de doces apreciados vagarosamente. Sabe que realmente não precisa do que vê através das vitrines. Ela gosta mesmo é de ver o quanto bonitas são as vendedoras das lojas. Tão maquiadas, alinhadas, corretas.

Nas manhãs seguintes, repete os rituais rotineiros. Calça o mesmo par surrado de sapatos, observando se precisará reparar o solado antes que caia. Usa os mesmos brincos trazidos pela prima de Ribeirão Preto. Caminha pelas ruas sem olhar para o horizonte, apenas para o chão. Veste o uniforme já meio surrado, prende os cabelos, lava as mãos e não sorri. Qualquer um que passe por ali e a veja, não terá dúvida. A ausência do olhar denuncia qualquer suspeita.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Sybylla
    maio 16, 2011 @ 17:11:54

    Ótimo texto, excelentes observações de um cotidiano de muita gente. Abraço!

    Responder

  2. Jose Ponto
    jun 10, 2011 @ 20:47:06

    Essa novela vai dar o que falar. Para quem pensa que não é preconceituoso, terá uma grande surpresa. Meu nome é Ken. Novela em 24 capítulos.
    http://meunomeeken.blogspot.com. Se gostar, por favor, divulgue.

    Responder

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