Diário de bordo – primeira viagem de negócios

Embora nunca tenha postado algo deste gênero no blog, senti muita vontade de escrever a respeito da minha primeira viagem a trabalho. Foram situações muito peculiares e interessantes que merecem registro. Passei 4 dias em Foz do Iguaçu trabalhando dentro da Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), que está em sede provisória dentro do Parque Tecnológico de Itaipu, e será construída em um terreno doado pela usina binacional.

A minha primeira preocupação foi preparar minha mala para os 4 dias que passaria em Foz do Iguaçu. Comecei procurando no Google “o que levar na mala viagem negócios”. Cliquei na primeira página e me rendeu boas risadas.

    § 1 blazer preto sem detalhes
    § 1 conjunto com calça e jaqueta ou paletó de veludo na cor creme
    § 1 camisa de tricoline com strech branca
    § 1 suéter nas cores rosa, vermelho, amarelo ou turquesa, por exemplo
    § 2 camisetas (uma branca e outra listrada – de preferência listras verticais, que alongam a silhueta)
    § 1 blusa ou camisa de mousseline ou cetim preta, que também pode ser usada de dia
    § 1 xale (tear fino ou mousseline)
    § 1 saia lápis preta (ou modelo A, que é mais larga na barra do que na cintura, ideal para quem tem quadril largo)

Desisti aí, triste, constatando que essas coisas não existiam no meu guarda roupa. Descobri também que era um site para gordinhas. Haha. Achei melhor seguir a sugestão do meu pai. “Leve umas roupas sérias e uma mais formal caso precise”. Pronto, arrumei tudo em 15 minutos.

Ao andar de avião, acho uma das coisas mais legais combo do mundo poder olhar aquele tapete de nuvem lá embaixo. Dá uma vontade de poder correr e deitar-se ali. Embora o aeroporto de Foz do Iguaçu tenha instalações modestas, poucos minutos por ali já se revelam interessantes. Vi celebridades, grupos de turistas de todo canto do mundo, como franceses, japoneses, um monge budista, uma família inteira muçulmana e por aí vai. Embora já tivesse passado por outros aeroportos internacionais, nunca tinha visto uma variedade tão grande em tão pouco tempo.

Ao encontrar o motorista da Unila que veio me buscar, também conheci a sorridente Rosilene, histórica primeira aluna da universidade, que veio de Ceilândia – DF para cursar Ciências Políticas. “Oi, Giulianna, prazer, meu nome é Rosilene. Você veio estudar o quê?” A pergunta não foi apenas da menina, uma boa parte dos professores e servidores da Unila também me perguntou se eu era aluna. Pequenos prazeres que só essa minha cara de colegial me proporciona.

Atualmente, a Unila encontra-se provisoriamente instalada dentro do PTI, em Itaipu. Para chegar ao imenso terreno da usina, é preciso atravessar toda Foz do Iguaçu, também inédita na minha vida. Embora lotada de hotéis e sotaques diferentes, ela tem seu charme provinciano e um quê de Maringá, acho que por causa da terra vermelha. A primeira coisa que chama a atenção ao se aproximar de Itaipu são os imensos postes de energia. Podem julgar minha imaginação demasiado fértil, mas imediatamente pensei em enormes alienígenas.

Eles estão vindo dominar a terra! D:

Eles estão vindo dominar a terra! D:

Não sei também se é comum sempre, mas notei que eu era a única mulher sozinha no hotel, pois só havia homens em viagens de negócios e famílias de turistas. Obviamente todo mundo ficava me olhando como se eu fosse uma extraterrestre. Ao contrário da Unila, aonde o tratamento é VIP para os alunos e os profissionais que vêm de longe. A força-tarefa inclui servidores e professores da UFPR, de outras universidades federais, de outros órgãos federais, da Itaipu, do PTI e profissionais aleatórios, como eu. Embora tudo esteja muito nebuloso e indefinido, a ligação que todos têm com o projeto e com o aspecto político da universidade é o que os faz persistirem e virem de tão longe para participar. É todo tipo de sotaque nos corredores: curitibanos, gaúchos, paulistas, cariocas, uruguaios, argentinos…

O segundo dia em Foz incluiu uma inesperada ‘viagem’ noturna para Ciudad Del Este, entre aspas porque é muito perto, menos de 20 minutos do hotel. Não achei nada feio, nada de terrível, pois como fui só até o shopping, à noite, Ciudad Del Este parecia mais uma cidade fantasma à la Gotham City, sem o Batman e com um shopping no meio daquele monte de lixo e escuridão. Dentro do shopping, olhei tudo, achei engraçado conversar com os vendedores, pois são todos paraguaios, mas falam português perfeitamente, já que o público-alvo são brasileiros. Comprei uma garrafa portátil de inox para conhaque, um Toblerone e uma caixa de alfajores Havana, já que não levei quase nada de dinheiro e meu único cartão internacional estava sem limite.

Na Unila, são notáveis as ações de recepção para os alunos. A universidade possui “cotas” de 50% das vagas para alunos brasileiros e 50% para alunos estrangeiros, que podem ser paraguaios, uruguaios, argentinos ou de qualquer outro país da América Latina cujo governo possua parceria com a instituição. Os alunos brasileiros ingressam através do Enem, enquanto os estrangeiros de acordo com o critério de seu país de origem. O alojamento improvisado próximo ao campus mistura os alunos de diferentes nacionalidades, numa prévia do que será a convivência na universidade. Por ser uma instituição bilíngue, a Unila terá professores de várias nacionalidades latino-americanas, além dos alunos e aulas de línguas para integração geral de todos. Os professores recepcionam os grupos de alunos que chegam no aeroporto e na rodoviária, achei isso extremamente legal. Além de que o projeto político-pedagógico da universidade é fascinante.

Em uma das tardes em que pudemos sair mais cedo, solicitei ao motorista que nos levasse para conhecermos a usina, nem que fosse de longe. O terreno todo da Itaipu é muito imenso, assim como a barragem. Tudo tem proporções magníficas. Na foto, pequenos pontos brancos são carros preparando o show de fogos que aconteceria à noite. A metade da esquerda é paraguaia, enquanto a metade da direita é brasileira. Para cada operário brasileiro deve haver um paraguaio, regra da casa binacional. Embora haja muitas brigas para aumento da participação paraguaia nos lucros, a diplomacia brasileira procura negociar de forma bem flexível, conforme afirmou o diretor-geral brasileiro, Jorge Samek em um almoço executivo que eu cobri em Curitiba.

O pedaço paraguaio e o pedaço brasileiro da usina

O pedaço paraguaio e o pedaço brasileiro da usina

Ainda fui mais uma vez para Ciudad Del Este, desta vez como a única mulher sozinha na van do hotel, com seis casais de brasileiros. Comprei algumas coisas que tinha namorado no dia anterior e voltei para o hotel, para comer uma pizza brotinho no meu quarto.

Os dias de trabalho foram muito produtivos, com o contato com o reitor e todos os pró-reitores, super dispostos e cheios de boa vontade em me ajudar, embora todos estivessem empenhados na recepção dos alunos e no início das aulas. Achei muito engraçado quando uma professora me perguntou se eu tinha mestrado, pois poderia dar aula de português para os alunos estrangeiros. Tá aí um projeto de vida bem interessante, embora eu ainda goste da minha profissão atual. Conheci as jornalistas Valéria Palombo, assessora de imprensa em Curitiba, a Mayara Godoy, atual e solitária coordenadora da comunicação da Unila e a gaúcha Ana Paula Dixon, ex-assessora técnica da equipe, em missão de ajudar a mim e a Mayara. Em meu pouco tempo de formada já noto algumas coisas em comum com outros profissionais, como a obsessão por brindes como canetas, bloquinhos e reuniões ou coletivas com um belo coffee-break. Hahahaha! Minha paixão por bacon foi compartilhada apenas com a Mayara, que sabe das coisas boas da vida.

Todas as sextas-feiras, o Luiz Carlos, motorista da universidade, prepara um almoço na copa para todos os funcionários. Sabendo que eu deveria partir logo cedo, adiantou a canjiquinha com carne de porco e salada e juntamente com a Chica, arrumaram um cantinho na copa para que eu pudesse almoçar. Achei a coisa mais fofa do mundo. Essa despedida de Foz do Iguaçu e da Unila fecharam tudo com chave de ouro, embora eu tenha passado pelo aperto de ter que pagar minha estadia no hotel, mesmo tendo ido a convite, hehe. Essas coisas a gente resolve depois.

O saldo positivo da viagem é que eu saí do país, conheci a usina de Itapu, conheci muita gente que vai entrar para a história junto com a Unila, coletei um monte de informações boas para o meu trabalho e posso me considerar uma executiva chique por viajar a trabalho. Hahaha. O saldo bancário, por sua vez, é de R$1,73. Ossos do ofício, hehe. Fica a missão de voltar para conhecer a Unila quando estiver pronta, conhecer as Cataratas, visitar Puerto Iguazu e aquele monte de gente bacana envolvida no projeto da universidade da integração.

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