A velha mansão

Há uma velha mansão aqui perto. Possui belas janelas grandes e expressivas. O telhado reluz, em perfeito estado. Mas as calhas sempre se entopem com as folhas das grandes árvores que a cercam. Seu jardim morre sob a densa nuvem de folhas secas. A porta é de madeira maciça, talhada, com puxadores dourados e pesados, linda. Mas emperra. É difícil de abrir.
Ela não tem moradores fixos. Até tem, mas não por muito tempo.
Eles chegam, impressionados com a fachada, com as janelas grandes e os cômodos espaçosos. Ela é quente e bem iluminada, e os recebe bem.
Aconchegante nos dias de inverno, com sua grande lareira acesa, iluminando toda a sala, deixa os moradores bem quentinhos.
Mas passam os dias e eles acham seu calor muito forte. Suas janelas iluminam demais quando querem dormir até mais tarde.
Eles não aguentam a calha entupida toda vez que chove e venta muito.
Como a porta emperra quando a umidade é muita, e as grandes janelas ficam difíceis de limpar.
A acústica da sala é péssima para o piano, e os banheiros ridiculamente pequenos.
Aí os moradores se irritam com as rachaduras nas paredes, que na verdade são frágeis.
A verdade é que a estrutura dessa velha mansão é frágil como um passarinho, por mais bela e aconchegante que ela seja.
E rápido como chegaram e se acomodaram, eles juntam seus pertences e saem, deixando a mansão cada dia um pouquinho mais quebradiça.

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Coincidência

Hoje sei que não adentro em um campo de consenso. Há defensores vorazes de cada lado, e estou aqui no meio defendendo o mais absurdo. O ser humano esclarecido e bem resolvido gosta de ter as rédeas da própria vida, é o senhor de suas escolhas. Há quem, também esclarecido, agradeça a muitas de suas bençãos como obras do destino.
Meu decreto talvez passe um pouco longe de tudo isso. A gente fica aqui no meio, bem calado. É que eu acredito na obra do acaso. Confesso, de canto de olho, que gosto de fazer minhas escolhas e responder por elas, sem botar sequer um dedo no destino. Mas convenhamos que a toda hora somos confrontados com a coincidência. Haverá quem, exaltado, se levante de sua cadeira bradando que a obra, na verdade é do destino. Eu, tímida aqui, contesto.
De que adiantaria a gente ficar dias e dias debruçado em um problema, buscando o melhor caminho, se o final quem vai determinar vai ser o destino?
Antes que me apedrejem, levanto meu escudo para cada lado. Somos sim, soberanos sobre nossas escolhas, não há dúvidas. Mas o acaso sempre encaixa seus pés em nossa estrada. Acaso esse, que depende das escolhas para ser atingido. E aí? Há sim, pequenas escolhas que esbarram em grandes coincidências, e grandes escolhas que passam por pequenas coincidências. Que podem ser tão pequenas, mas tão importantes.
A verdade é que não se pode atribuir um significado cósmico como o destino para um simples evento na terra. Coincidência. Isso é tudo. Nada mais que mera coincidência.