A angustiante condição feminina em Syngué Sabour

Através da angústia de uma mulher que cuida do marido em coma, Atiq Rahimi leva seus leitores a um universo de agonias, silêncios e submissão feminina, em uma época e localidade indefinidas, mas que não deixam de ser atuais, em Syngué Sabour – pedra-de-paciência.

A mulher, personagem que protagoniza a obra toda, sem nome definido, alimenta, limpa, troca e reza pelo seu homem, em torpor catatônico em um cenário de pobreza e de guerra. A linearidade do texto não se define por dias e horas, ela gira em torno de respirações, voltas de terço, rotinas e orações.

A obra começa com um ritmo lento, pausado, ritmado, como as respirações do homem. As pausas frequentes na narrativa, com espaços em branco entre os parágrafos, colaboram para essa impressão. Já nos trechos mais intensos, as pausas ocorrem menos e os parágrafos são longos blocos, que prendem o leitor até a próxima parada. Atiq Rahimi dá ao leitor tempo para respirar entre os fatos, refletir, digerir.

Assim como a bolsa de perfusão que libera lentamennte soro para o homem, com uma linguagem simples e polida, Rahimi libera as palavras, contorna o cenário, a tradição do local, a condição feminina, como gotas.

Mesmo para o leitor que não conhecer a cultura na qual a história se passa, a rotina de cuidado que a mulher tem com o marido, sistemática e repetitiva, na narrativa calma e detalhada, repleta de pausas e silêncios propositais, reflete bem o contexto das mulheres como a protagonista.

Os pequenos rituais se repetem, de forma cansativa e repetitiva, mas sempre diferente. Tomada pelo desespero de ver que seu marido não volta a ter consciência, a mulher começa a transformá-lo em seu confidente, e contar a ele coisas que jamais ousaria falar.

Capa do livro

Capa da edição brasileira de Syngué Sabour - Pedra-de-paciência

Seu marido, ao se tornar sua pedra de paciência, ou como ela diz, sua syngué sabour, passa a fazer parte de um ritual diferente, além de limpá-lo, pingar colírio em seus olhos e alimentá-lo com soro, ela conta a ele todos os seus segredos mais atormentadores, relacionados ou não ao casamento. Através de revelações de segredos da sua vida, histórias populares, lembranças da breve vida com o marido, a mulher desvenda um mundo amargo de submissão e escuridão, pelo qual transitam todas as mulheres de seu país.

A fragilidade da narrativa, quando relacionada à sexualidade, mostrando a vergonha e o segredo, refletem uma sociedade de tabus e estigmas, sobretudo no que diz respeito à feminilidade e ao corpo e prazer da mulher.

A repetitividade dos fatos, com detalhes acrescentados, dão à narrativa um caráter de progressividade, são acontecimentos cíclicos. A cada dia a mulher revela novos segredos, sua personalidade ganha contornos, sua história fica clara e é quase possível ver seu rosto por baixo da burca.

O final da pedra-de-paciência é tão misterioso quanto o final da fábula que a avó da mulher contava, e como refletia seu sogro: “Para que tenha um final feliz, minha filha, a história exige um sacrifício, como na vida”. E assim como a pedra-de-paciência, a história segue uma cadência, um ciclo, até finalmente estourar.

Giulianna Oliveira Santos é jornalista e gosta de fingir ser crítica literária nas horas vagas.

Atiq Rahimi

Atiq Rahimi gatinho, né?

RAHIMI, Atiq. Syngué-Sabour: pedra-de-paciência. São Paulo. Estação Liberdade, 2009.

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