Joia


Naquela noite quente, cheguei em casa sem tirar os sapatos que apertavam meus pés e sem tirar a pesada bolsa cheia de cacarecos do ombro. Corri para aquele lugar secreto, onde eu não mexia há anos.
Abri as caixas dos meus relacionamentos anteriores, escondidas, lacradas, intactas. Que não me lembro, mas que provavelmente guardei aos soluços, com olhos de orvalho, esperando enterrar também as lembranças que não podiam ser apagadas com meia dúzia de taças de vinho barato.
Esperanças e promessas adolescentes, cartas, poemas, presentes, fotografias amareladas de rostos quase estranhos, mas que nunca tive coragem de jogar fora.
Envelhecidos, riscados, amarelos, jaziam ali no meio aqueles anéis de prata que tantas mulheres se orgulham de carregar na mão direita. E que provavelmente também foram motivo de orgulho para meus dedos outrora mais magros do que o são hoje.
Impossível não observar os aneis velhos e manchados, com os nomes gravados na prata, enegrecidos e não relembrar tudo.
E impossível não olhar o novo, brilhando, sem riscos e desejar que o seu fim não seja igual. Que não seja guardado e escondido por anos numa caixa escondida. A não ser que seja trocado por outro. hehe.

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