Joia

Naquela noite quente, cheguei em casa sem tirar os sapatos que apertavam meus pés e sem tirar a pesada bolsa cheia de cacarecos do ombro. Corri para aquele lugar secreto, onde eu não mexia há anos.
Abri as caixas dos meus relacionamentos anteriores, escondidas, lacradas, intactas. Que não me lembro, mas que provavelmente guardei aos soluços, com olhos de orvalho, esperando enterrar também as lembranças que não podiam ser apagadas com meia dúzia de taças de vinho barato.
Esperanças e promessas adolescentes, cartas, poemas, presentes, fotografias amareladas de rostos quase estranhos, mas que nunca tive coragem de jogar fora.
Envelhecidos, riscados, amarelos, jaziam ali no meio aqueles anéis de prata que tantas mulheres se orgulham de carregar na mão direita. E que provavelmente também foram motivo de orgulho para meus dedos outrora mais magros do que o são hoje.
Impossível não observar os aneis velhos e manchados, com os nomes gravados na prata, enegrecidos e não relembrar tudo.
E impossível não olhar o novo, brilhando, sem riscos e desejar que o seu fim não seja igual. Que não seja guardado e escondido por anos numa caixa escondida. A não ser que seja trocado por outro. hehe.

Anúncios

Da auto traição

Nós, mortais, vivemos numa cúpula permeada de desculpas. Quase todas para nós mesmos. Quando faltamos para com alguém, antes de qualquer tentativa justificativa para o outro, elaboramos, revisamos, lapidamos uma desculpa para nós mesmos. Porque a cúpula não pode se quebrar.
Porque a juíza implacável dos nossos atos é a nossa consciência. Ela sim, onipresente, onisciente e onifodalhona. Sempre ali, de olho aberto cobrando providências.
E como ela é muito ágil, sempre bom estar com a desculpinha ali, polida e revisada na ponta da língua. Os outros depois, antes de tudo a nossa consciência.
E quando a gente a trai? Putz! “Hoje estou cansado, mereço dormir mais meia hora”. Há poucos que conseguem ignorá-la e traí-la sem que ela fique pesada. Artistas da própria enganação.
Que assine aqui embaixo aquele que se permite, se deleita, se mima, vez ou outra. “Eu me traio”, assuma.
E que antes mesmo de consumar a auto traição, traça um plano de fuga onde pode se justificar sem se engasgar no primeiro questionamento mais incisivo. Afinal, é para nós mesmos que nos justificamos e ponto.