Do concreto e do efêmero


Folheio e editoria policial do jornal, repleta de números e nomes. Não são mais rostos, não são mais histórias. São um nome, uma idade, um punhado de palavras impressas na folha cinza e apática.
No centro da cidade, engravatados esticam o pescoço para olhar de soslaio a tragédia do senhor suicida. Imagino que tipo de pensamentos lhe ocorrem. A sociedade tem um gosto estranho pela desgraça.
Há quem se lembre daquele parente que há pouco faleceu. Vai lembrar da foto amassada guardada na gaveta, ou da câmera não chegou à tempo de eternizar a imagem da pessoa. Eternizar? É tão efêmero viver.
Todas as manhãs a cidade vomita nomes para os mortuários. Nomes, números, profissões, rostos amarelhos e olhos opacos, que engrossam as tristes estatísticas da pós-modernidade.
E na rua cinzenta e fétida da metrópole, os transeuntes comentam a trivialidade da catástrofe, envoltos no seu manto de afazeres. Não, não foi uma flor que nasceu no asfalto, para quebrar o tédio, a náusea e o nojo.
Foi um homem morto no meio do asfalto. Não se percebe seu nome, sua idade, sua profissão, é apenas um corpo amarelo no meio da imensidão cosmopolita. E tornou mais intensa a onda de ódio, tédio, náusea e nojo.
Fizeram sim, completo silêncio, pararam o comércio, passaram de longe ônibus e carros.
Fizeram silêncio para contemplar a tragédia de mais um sem nome arrastado para as apáticas folhas cinzas do jornal.

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Carol
    out 06, 2009 @ 00:03:05

    Nós somos nomes escritos do começo ao fim.
    Não tem certidão de nascimento? Não tem identidade? Vc não existe.
    Estranho mesmo como uma ausência-de-vida acaba chamando mais atenção do que a vida nas ruas. Mas acho que é meio que natural e instintivo, mesmo ao homem da cidade, parar e contemplar a morte por um momento. É ancestral.
    Mais triste seria se um dia parássemos de olhar.

    Responder

  2. Diego Mello
    out 06, 2009 @ 14:35:34

    A eterna incerteza do que existe depois da morte provavelmente seja a maior responsável pelo estranho gosto pela desgraça, pelas reflexões que elas geram e, em seguida, pelo seu esquecimento.

    Responder

  3. Arthur FG
    fev 05, 2010 @ 12:00:56

    As tragédias não preocupam ninguém, elas disfarçadamente dão uma imensa alegria: ”antes com ele do que comigo!”….

    Responder

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