Le Clézio – O Africano

Ou resenha que gostei de fazer. A resenha que fiz, d’O Amante, ganhou da professora um “Muito Bom! Merece ser aprofundado!” =D

Aquele que se aventura na leitura de “O Africano”, de Le Clézio, embarca numa viagem de sensações intensas pelas terras africanas. Para introduzir o leitor na temática do enredo, ele conta lembranças de sua infância morando em uma casa em Ogoja, com os pais. Mas esse começo autobiográfico só serve como introdutório, pois o livro se trata de seu pai, cuja história dá título à obra.

O tempo passado pelo autor na casa na Nigéria é uma narrativa forte, cheia de imagens marcantes de situações vividas. Não pela riqueza de detalhes, mas pela forma como a descrição crua e dinâmica se costura com o enredo. Le Clézio foge do lugar comum dos autores europeus da época que tratam das terras africanas, ele mesmo cita alguns. A infância é ressaltada puramente como experiência de sensações, sem impressões sociais profundas.

O autor narra suas aventuras pelas florestas de Ogoja, com os meninos africanos, as sensações das brincadeiras e das correrias pelas matas. Não se trata de algo extraordinário, são crianças, brincam, correm, gritam e pouco falam. E justamente por não se tratar de algo extraordinário é que essa narrativa fascina tanto, são lembranças cruas, intensas, verdadeiras.

E as sensações que Le Clézio relata das épocas vividas na Nigéria, apesar de serem poucas, servem como base para todo o resto do livro, pois todas as impressões que ele teve da África mais tarde, para conhecer melhor seu pai, possuem como base primária as tardes ensolaradas, as noites abafadas e as tempestades violentas de sua infância.

Le Clézio narra, em seguida, a saga de seu pai nas terras estrangeiras após ele e sua mãe terem que retornar à Europa para o nascimento de seu irmão mais novo. Das tentativas frustradas de seu pai de reencontrar sua família, e da amargura que foi criando nos anos passados longe até a estranheza do convívio tardio na Europa.

A ruptura final acontece quando o autor desvincula de seu texto conceitos como exoticidade e nostalgia, para agradecer ao pai, de certa forma, sua ligação tão forte com a África, sua essência, o que acaba amarrando, inevitavelmente toda a obra e a personalidade literária do autor. Ele guarda, mesmo que não tenha presenciado, os tempos felizes em que seus pais viveram em Camarões, principalmente porque acredita ter sido concebido em meio à essa felicidade.

Giulianna Santos, outubro de 2009.

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Do concreto e do efêmero

Folheio e editoria policial do jornal, repleta de números e nomes. Não são mais rostos, não são mais histórias. São um nome, uma idade, um punhado de palavras impressas na folha cinza e apática.
No centro da cidade, engravatados esticam o pescoço para olhar de soslaio a tragédia do senhor suicida. Imagino que tipo de pensamentos lhe ocorrem. A sociedade tem um gosto estranho pela desgraça.
Há quem se lembre daquele parente que há pouco faleceu. Vai lembrar da foto amassada guardada na gaveta, ou da câmera não chegou à tempo de eternizar a imagem da pessoa. Eternizar? É tão efêmero viver.
Todas as manhãs a cidade vomita nomes para os mortuários. Nomes, números, profissões, rostos amarelhos e olhos opacos, que engrossam as tristes estatísticas da pós-modernidade.
E na rua cinzenta e fétida da metrópole, os transeuntes comentam a trivialidade da catástrofe, envoltos no seu manto de afazeres. Não, não foi uma flor que nasceu no asfalto, para quebrar o tédio, a náusea e o nojo.
Foi um homem morto no meio do asfalto. Não se percebe seu nome, sua idade, sua profissão, é apenas um corpo amarelo no meio da imensidão cosmopolita. E tornou mais intensa a onda de ódio, tédio, náusea e nojo.
Fizeram sim, completo silêncio, pararam o comércio, passaram de longe ônibus e carros.
Fizeram silêncio para contemplar a tragédia de mais um sem nome arrastado para as apáticas folhas cinzas do jornal.