O Andarilho


Em uma velha praça de minha cidade, deparei-me com um homem de pele queimada e cabelos clareados pelo sol, que elegantemente sentado sobre um banco isolado, folheava desatento um livro de capa rota e título ilegível. Pareceu-me também indecifrável seu leitor. Não necessariamente atraente, mas recoberto de um belo mistério, um charme que transbordava dos doces olhos castanhos.
Com esses olhos chamou-me para sentar ao seu lado, obedeci em silêncio. Pegou com delicadeza uma das minhas mãos e disse com uma voz macia, de tom apaziguador: “Sou um andarilho errante, um homem nômade de caminhos incertos. Mas cada cidade por que passei me deixou uma marca, que nunca desaparecerá”.
Abriu uma das mãos e continuou segurando a minha com a outra. Fitou meus olhos e em seguida a palma da mão aberta. Estava repleta de pequenos arranhões irregulares. Eu poderia imaginar o que teria causado aqueles ferimentos, mas minha mente contemplava a situação, muda. Fitou novamente meus olhos, de forma quase ritualística. E abriu um botão da camisa um tanto gasta de algodão marrom. Pude ver, desta vez, cicatrizes profundas de cortes que tampouco ousei imaginar a causa.
O misterioso homem fez um pequeno silêncio, imaginei que estivesse tentando imaginar o que eu pensava. Um imenso nada, era o que habitava minha mente naquele instante. Ele tornou a falar com aquela voz macia: “Estive em cidades tão inóspitas e frias, que tive minha pele queimada pelo vento gélido. Mas operei mudanças guardadas até hoje próximas às lareiras das casas”
Tocou as cicatrizes fundas espalhadas pelo peito. “Essas marcas são resultado de batalhas e mais batalhas travadas em umas duas ou três cidades” O silêncio quase ritualístico de contemplação da minha expressão se repetia.
“Algumas dessas cidades me recebem hoje com grande carinho. Mas tive que curar sozinho minhas feridas, vagando pelas estradas, antes de tentar me reaproximar. Hoje sei que tenho um afago verdadeiro, mas sei também que essas não são as minhas casas.”
Fechou calmamente os botões abertos da camisa e mostrou as mãos cheias de pequenos cortes.
“Há outras cidades com apenas uma porta de entrada, com uma saída que não é pelo mesmo caminho. Receberam-me de braços estendidos, com uma bela faixa na entrada e minha foto no jornal. Passei tardes de alegria juvenil e noites de esbórnia, tanto intensas quanto a minha entrega. Mas em meio as festas, elas cansaram de mim, e corri por entre os espinhos, com os olhos marejados e lançando vistas furtivas. Os espinhos me rasgaram a pele e as roupas enquanto eu os afastava, riscaram minha face.”
Fiquei espantada com o fato de não ter percebido que os pequenos cortes estavam por todos os braços e espalhados timidamente pelo rosto moreno.
“E sei que antes mesmo das minhas feridas fecharem, a cidade já recebeu outro visitante com a mesma alegria primaveril e efêmera.”
Tentei notar algum tom de tristeza na voz ou no olhar, mas ele permanecia envolto no mistério do primeiro momento, e prosseguiu:
“Guardo mais apreço pelas alegrias que me custaram mais caro, e essas são as cicatrizes que não quero que desapareçam. Diferentes dos cortes causados pelos espinhos, que me fazem perder o sono, mas que sumirão em breve, deixando poucos vestígios.”
Em um gesto inesperado, esticou o braço, e se aproximou do meu rosto, para alcançar algo que estava atrás do banco da praça. Tirou de uma trepadeira uma pequenina flor de jasmim e colocou-a entre meus cabelos, de uma forma quase paternal.
“Eu sou um nômade errante, continuo caminhando sem rumo, sendo um hóspede incerto. Assim sigo, imprevisível, até encontrar o afago que me faça sentar ao lado de uma lareira e contemplar o silêncio compartilhado.”
Passou as mãos sobre os cabelos castanhos rebeldes, levantou-se e seguiu andando silenciosamente.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Diego Mello
    set 02, 2009 @ 10:52:34

    Devolva-me meu Humano, Demasiado Humano. Tenho uma recomendação que, levando em consideração esse teu conto, suponho que mais te agradará: O Futuro da Humanidade, do Augusto Cury.

    Segue o link: http://www.megaupload.com/?d=84QEKFY9

    Responder

  2. Alberto R T
    set 04, 2009 @ 01:16:14

    Isso sim é que é arte de escrever. Muito Lindo isso, Giu… Que narrar!

    Responder

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