O Amante – M. Duras

Giulianna também é cultura, pessoal! Pega essa!

Marguerite Duras – O Amante

A leitura de “O Amante” de Marguerite Duras não é uma leitura fácil. A narrativa, que alterna entre primeira e terceira pessoa do singular, ora no passado, ora no presente, é fragmentada e alusiva. Mas ao mesmo tempo em que é uma leitura não tão fácil, é magnética para o leitor, graças à construção gradual que a autora faz das imagens e das situações.
É possível notar que tanto a construção psicológica quanto visual das personagens é feita de forma progressiva, a partir das situações que são narradas. A autora delineia as imagens de forma sutil, subjetiva, para ir dando pinceladas mais decisivas ao longo da narrativa. Mas ao mesmo tempo em que ela utiliza esse recurso, o texto não possui uma linearidade definida. Saltos de tempo são utilizados para relacionar ações anteriores e posteriores no decorrer da narrativa que seria presente. E esse recurso reforça a subjetividade das imagens.
A escrita de Marguerite Duras é como uma memória intensa, violenta. Com alguns lapsos e esquecimento de detalhes, mas também com uso de imagens fortes, de fatos marcantes, objetos que se repetem, alusões sinestésicas, relações inusitadas que vão ficando mais evidentes no decorrer do texto.
A imagem inicial da menina na balsa e de sua roupa peculiar é uma referência frequente na narrativa. E a cada vez que a imagem se repete, a autora denota mais significados para essa referência tão repetida da roupa. Da miséria da família, dos traços de cada membro da família em cada peça, do comportamento escandaloso da menina, da sexualidade precoce. O conjunto da roupa é, na verdade, uma materialização da personalidade da personagem. E conforme é descrita a conduta da menina, a roupa se torna seu estigma.
A relação que ela tem com o chinês também é apresentada de forma cíclica, é conturbada, repetitiva, conformista. As cenas dentro da garçonnière se repetem de forma ritualística, intensa e sofrida. Ela sofre com seu vazio e o chinês sofre pelo amor que sente por ela, aparentemente não correspondido. Ela leva para o leito com o homem suas frustrações com sua mãe e se projeta como sua filha.
E alguns fatos dispersos entre a linha narrativa geram pontos de interrogação. O filho nascido morto é citado de forma sutil e superficial, assim como a morte do irmão mais moço, relacionada com um engano. Ambos os fatos e sua relação com os acontecimentos em andamento podem adquirir interpretações diversas. A interpretação geral da obra se dá de forma cíclica, conforme ela remonta algumas cenas similares e reafirma situações: as conversas com a mãe, os encontros com o chinês, a imagem da jovem e sua roupa peculiar. Tudo forma um conjunto de fatos que ligados delineiam o tema central, o amante.

Giulianna Santos – setembro de 2009.

Esta que vos escreve.

Esta que vos escreve.

Se você viu a foto e duvidou que eu li o livro, comente!

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Tudo por causa da … vadiagem!

Vim aqui para fazer uma espécie de defesa. Vou ser minha própria advogada, se assim preferem.
Só estou querendo ser feliz. É sério, não quero machucar ninguém.
Eu gosto de todos, cada um com seu jeitinho, com sua personalidade, seu perfume, suas mãos.
Eu gosto de ver seus sorrisos quando encontram meus olhos. Gosto quando beijam meu rosto e acariciam meu cabelo. Gosto do abraço.
Eu me afundo em prantos quando me esquecem. Sim, cada um.
Jamais fui negligente e sempre dei segundas chances àqueles que não foram tão legais.
Pelo menos alguma vez, cada um esteve no meu pensamento quando sozinha, esbocei um riso tímido lembrando de algum momento ou palavra.
Talvez vão pensar que uso-os para alimentar meu ego. Talvez seja um pouco disso, mas muito pouco.
Eu sou uma amante verdadeira. Verdadeira porque não sou uma casca de prazer, porque tenho sentimentos e sempre faço bom uso deles.
Eu gosto, eu tenho carinho, eu me lembro, eu escrevo, eu rio, eu choro.
Eu sou uma amante verdadeira. Desprezada.

Do remorso e do silêncio compartilhado

Você percebe que gosta realmente de uma pessoa quando sente uma espécie de remorso por não tê-la conhecido antes. Não antes dois ou três meses antes. Antes quando ela aprendeu a falar, quando conseguiu escrever o nome pela primeira vez, quando quebrou o braço na 4ª série e na pior fase de sua adolescência.
É como se você se culpasse por ter perdido o que poderia ter passado junto à pessoa. Óbvio que você não poderia passar, mas uma estranha culpa o domina por ter estado longe.
Quando se encontra (ou se reencontra) uma pessoa amada, a impressão que se tem é que o tempo que se passou longe é irreparável. De fato, é. Nada vai acontecer de novo, se acontecer, não será igual.
E também porque se muda quando se conhece a pessoa amada. Supondo que você poderia ter conhecido, mas jamais a veria como você a vê hoje, pois ainda não a conheceria do jeito que a conhece a ponto de ter mudado sua personalidade.
É quando acontece aquele estalo. Aquele estalo que te muda. Que te faz perder o chão. É quando você consegue compartilhar o silêncio com alguém, sem necessidade de falar qualquer besteira para quebrar o silêncio. Mas ao mesmo tempo, os olhos trocam centenas de palavras.
Você vai pensar que escrevi isso para alguém. Que consigo compartilhar o silêncio com alguém. Já fui capaz. Com alguéns. O mesmo nada que era o antes se tornou o depois. Compartilho silêncio com meus algozes.

Meia-noite está se tornando minha hora da inspiração.

Ceticismo

Aquela, como outras noites daquele ano, era uma imagem que merecia ser fotografada. Mas que ninguém fotografou. Colocou aquele vestido de cetim lilás, aquele que adora. E que mancha só de olhar. Lavou e passou com cuidado para que ele ficasse impecável. Deixou o cabelo perfeito, pintou as unhas e se perfumou.
Destruíram tudo e afundaram num pouco d’água com clonazepam.
Aquela outra também. Trazia boas notícias e vestia seu novo casaco xadrez, que deixa com cara de responsável, um sorriso e um perfume barato. Bastaram algumas palavras e cervejas para que o dilúvio levasse o rímel embora. Sorte que não foi fotografada.
Não tem encanto que sobreviva.
Junta os seus pedaços e se monta com uma casca bonita. Não morde nenhuma das iscas que lançam, só belisca com medo que o anzol lhe corte os lábios enfeitados de batom. Não esconde que os véus fazem-na soluçar pela alegria alheia. É comum da sua natureza.
Olha sozinha os braços sem adornos. Não, não há mais nada que impressione.

Paixão platônica

Pense na cabeça insana de uma mulher né. Bofe passando pertinho, ali, praticamente na bolha pessoal.
“OMG, OMG e agora? Viro pra trás e dou oi? Mas falo o que? Oi fulano? Oi, lembra de mim? Vai que ele não lembra? Caralho! Não, vou fazer charme. Mexe no cabelo. Não, tá sujo meu cabelo. Ai gente. E eu com esse monte de sacola, pareço uma sem-terra. Ok, ok, mantenha a calma. Tá, vou olhar com minha visão panorâmica. JESUIS! QUE GATO! Respira, Brasil! Ok, esqueci, o que eu queria comprar mesmo? Ah, lembrei, um iogurte, bom, não faz sujeira. Cuidado pra não derrubar as coisas, sua estabanada! ­– Oi, boa noite, tudo bem? um iogurte, por favor”.
*praticamente uma crônica

O Andarilho

Em uma velha praça de minha cidade, deparei-me com um homem de pele queimada e cabelos clareados pelo sol, que elegantemente sentado sobre um banco isolado, folheava desatento um livro de capa rota e título ilegível. Pareceu-me também indecifrável seu leitor. Não necessariamente atraente, mas recoberto de um belo mistério, um charme que transbordava dos doces olhos castanhos.
Com esses olhos chamou-me para sentar ao seu lado, obedeci em silêncio. Pegou com delicadeza uma das minhas mãos e disse com uma voz macia, de tom apaziguador: “Sou um andarilho errante, um homem nômade de caminhos incertos. Mas cada cidade por que passei me deixou uma marca, que nunca desaparecerá”.
Abriu uma das mãos e continuou segurando a minha com a outra. Fitou meus olhos e em seguida a palma da mão aberta. Estava repleta de pequenos arranhões irregulares. Eu poderia imaginar o que teria causado aqueles ferimentos, mas minha mente contemplava a situação, muda. Fitou novamente meus olhos, de forma quase ritualística. E abriu um botão da camisa um tanto gasta de algodão marrom. Pude ver, desta vez, cicatrizes profundas de cortes que tampouco ousei imaginar a causa.
O misterioso homem fez um pequeno silêncio, imaginei que estivesse tentando imaginar o que eu pensava. Um imenso nada, era o que habitava minha mente naquele instante. Ele tornou a falar com aquela voz macia: “Estive em cidades tão inóspitas e frias, que tive minha pele queimada pelo vento gélido. Mas operei mudanças guardadas até hoje próximas às lareiras das casas”
Tocou as cicatrizes fundas espalhadas pelo peito. “Essas marcas são resultado de batalhas e mais batalhas travadas em umas duas ou três cidades” O silêncio quase ritualístico de contemplação da minha expressão se repetia.
“Algumas dessas cidades me recebem hoje com grande carinho. Mas tive que curar sozinho minhas feridas, vagando pelas estradas, antes de tentar me reaproximar. Hoje sei que tenho um afago verdadeiro, mas sei também que essas não são as minhas casas.”
Fechou calmamente os botões abertos da camisa e mostrou as mãos cheias de pequenos cortes.
“Há outras cidades com apenas uma porta de entrada, com uma saída que não é pelo mesmo caminho. Receberam-me de braços estendidos, com uma bela faixa na entrada e minha foto no jornal. Passei tardes de alegria juvenil e noites de esbórnia, tanto intensas quanto a minha entrega. Mas em meio as festas, elas cansaram de mim, e corri por entre os espinhos, com os olhos marejados e lançando vistas furtivas. Os espinhos me rasgaram a pele e as roupas enquanto eu os afastava, riscaram minha face.”
Fiquei espantada com o fato de não ter percebido que os pequenos cortes estavam por todos os braços e espalhados timidamente pelo rosto moreno.
“E sei que antes mesmo das minhas feridas fecharem, a cidade já recebeu outro visitante com a mesma alegria primaveril e efêmera.”
Tentei notar algum tom de tristeza na voz ou no olhar, mas ele permanecia envolto no mistério do primeiro momento, e prosseguiu:
“Guardo mais apreço pelas alegrias que me custaram mais caro, e essas são as cicatrizes que não quero que desapareçam. Diferentes dos cortes causados pelos espinhos, que me fazem perder o sono, mas que sumirão em breve, deixando poucos vestígios.”
Em um gesto inesperado, esticou o braço, e se aproximou do meu rosto, para alcançar algo que estava atrás do banco da praça. Tirou de uma trepadeira uma pequenina flor de jasmim e colocou-a entre meus cabelos, de uma forma quase paternal.
“Eu sou um nômade errante, continuo caminhando sem rumo, sendo um hóspede incerto. Assim sigo, imprevisível, até encontrar o afago que me faça sentar ao lado de uma lareira e contemplar o silêncio compartilhado.”
Passou as mãos sobre os cabelos castanhos rebeldes, levantou-se e seguiu andando silenciosamente.