Crônica de viagem

Eu me levanto quando a lua ainda resplandece no céu, entre densas brumas e pego o caminho. Carrego-me com tudo o que vou precisar para o dia: um pouquinho de expectativa, uma agenda, umas músicas, abano o sono para espantá-lo.

Não é uma viagem estressante, muito pelo contrário, é feita para se refletir, principalmente porque leituras me causam vertigens. É aquele tempo de retiro: vejo as copas das árvores, vezes cobertas por neblina, outras pálidas de gelo, a grama branquinha, as ovelhas pastando. Lembro de fatos curiosos como a morte súbita de um dos motoristas enquanto dirigia, no meio daquelas estradas tortuosas e esburacadas.

David Gilmour canta algo doce, pensamentos fluem.

Todos os problemas paracem, de repente, tão pequenos, distantes, tão simples. Aquela lembrança ruim, que causava aquele apertinho ruim no fundo do peito se torna banal. Aquela pessoa que rendeu tanto pranto e ranger de dentes ficou lá na civilização, atrás das brumas.

E algumas outras pessoas, inusitadas, parecem insistir no pensamento. Dá vontade de descer, voltar e correr dar um beijo de bom dia.

Eu ainda sou do tempo das gentilezas.

A viagem nem é tão longa, mas os pensamentos flutuam tanto que parecem ter se passado algumas horas. Chega aquela curva que eu conheço, de um lado tem um nada e do outro também, fim da viagem para mim.

Os nerds que me perdoem, mas adoro lidar com carne e osso.

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