Mini ensaio sobre a essência


Muito se fala sobre a origem da personalidade das pessoas, surgem teorias sobre conhecimento empírico, criação, contexto social, herança genética e até influência dos astros. Já eu acredito que cada pessoa é dotada de uma “essência”, não necessariamente boa ou má, mas única e intrínseca a cada um. A “essência” da qual falo se sobrepõe à sua criação, seu contexto e seu signo, ela já está lá e sempre ficará, evidente ou não.
Mas e daí?
Como aqui é a minha sessão descarrego, vou falar da minha essência. Ela que é toda essa tormenta ou toda essa tempestade de areia no deserto, ela que é feita de uma chuva de pingos grossos, no meio da ventania sob um céu de um escuro quase noturno. Ela que é revolta e instável como o oceano.
Minha essência não é de todo boa, tampouco de todo má. Mas é inteira, sólida, como um farol antigo em uma ilha no meio do mar revolto.
O farol pode às vezes parecer apagado, mas gira tímido e insistente em meio à tempestade, lembrando de quando em quando o horizonte do seu brilho. Outras vezes é ofuscado pela luz forte do sol de verão, em manhãs tão azuis quanto podem ser, com o mar em plena calmaria refletindo seu fulgor.
Mas, ainda assim, continua aceso.
Ela é como a flor rara que cresce na campina distante. Que se ri das abelhas zunindo, dos tigres e das correntes de vento, feroz com seus espinhos e segura de si, porém solitária. E quem já a amou e tentou tirá-la de lá e protegê-la numa bela cúpula de vidro soube que ela perderia o viço e as pétalas suaves murchariam como um velho moribundo.
Amam-na em sua autenticidade, mas não a suportam.
Tentam mudá-la, em vão. E como querer controlar o avanço da maré após uma noite de tempestade, ela vai engolir as embarcações, destruir os trapiches e inquietar os corações de quem espera um marinheiro em casa.
Algumas vezes, parece o lago silencioso, coberto de névoa, numa manhã de inverno. Outras vezes é o crepúsculo opaco, mas na maioria, se move como o deserto, o desejo e a tempestade.

Eu escondo de mim o meu fracasso. Desisto. E tristemente coleciono frases de amor. Em português é ‘eu te amo’. Em francês – ‘je t’aime’. Em inglês – ‘I love you’. Em alemão – ‘Ich liebe disch [sic]’, está certo? Logo eu, a mal-amada. A grande decepcionada, a que cada noite experimenta a doçura da morte. Eu me sinto uma charlatã. Por quê? É como se a minha última veracidade eu não revelasse. (Clarice Lispector)

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. sheevamenquet
    maio 24, 2009 @ 18:22:04

    a minha é fluída…como a fumaça, as vezes densa, as vezes dispersa!
    Tão diferentes e tão aprecidas!! te amo!!

    Responder

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