A tua voz na Primavera

Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios úmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo beijo… olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos…

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

Florbela Espanca

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Literatura vampiresca: mistério, sedução e flânerie

Não me recordo muito bem quando foi meu primeiro contato com vampiros. Deve ter sido com a versão de bolso do Drácula de Bram Stoker, em inglês, pedido por algum professor; ou com os charmosos Louis e Lestat vividos por Brad Pitt e Tom Cruise no filme Entrevista com o Vampiro numa eventual Tela Quente; ou até mesmo com o clássico dos anos 80 Garotos Perdidos numa Sessão da Tarde. A única coisa que sei dizer é que exerceram indescritível fascínio sobre a adolescente que eu era, e que hoje ainda exercem. Todo aquele charme, aquela palidez, aquela coisa misteriosa que o “beijo do vampiro” tem. Não eram coisas facilmente encontradas em rapazes do colégio, no clube ou na rua de casa. E desde o começo eu gostei dos vampiros “bonzinhos”, não os monstros massacrados por Blade. Ok, Drácula não era exatamente bonzinho, mas era extremamente sedutor, e levava para seu mundo as mais lindas mulheres da cidade.

Todas as vezes que pegava algum dos clássicos de Anne Rice para ler (O vampiro Lestat, Entrevista com o Vampiro, A rainha dos Condenados, entre outros) aquelas criaturas fascinantes faziam os meus dias. E quando o livro acabava, eu ficava com aquela sensação de saudade de um namorado que me deu um fora. Para mim, o mais fascinante desses charmosos vampiros era o Lestat de Lioncourt, da Anne Rice, interpretado no cinema por Tom Cruise e Stuart Townsend, (Entrevista com o vampiro, 1994 e Rainha dos condenados, 2002) não menos charmosos que o personagem literário. Ele era sedutor, inteligente e misterioso, e além das roupas luxuosas de veludo do século 18, de quebra ainda tinha um sotaque francês. Os homens provavelmente o achariam meio gay, mas grande parte das mulheres concordaria que seu charme é irresistível.

Esse encanto aumentou quando conheci os chupadores de sangue tupiniquins. Sim, eles existem. Tudo começou quando um ex-namorado colocou em minhas mãos um exemplar de Os Sete, de André Vianco. Ele era meio avesso à leitura, mas me disse todo entusiasmado “leia que você vai adorar!”. Olhei a capa do livro e confesso que achei meio tosca, mas confiei na recomendação, e li o primeiro capítulo ali mesmo na casa dele. Foi paixão à primeira vista. Li vários outros livros do Vianco, seus vampiros brasileiros e até os portugas me fizeram companhia durante muito tempo. Apesar de ser um escritor que aborda o sobrenatural em geral, seus vampiros foram os que ficaram famosos em todo o país. Mas os sanguessugas de Vianco eram diferentes dos misteriosos Lestat e Drácula. Eram quase reais, quase humanos, se é possível imaginar isto. Só alguns dos vampiros portugueses tinham um tanto desse charme, mas só um pouco, pois eles eram os vilões. E a coisa mais interessante dos vampiros brasileiros em relação aos vampiros europeus do século retrasado era realmente a proximidade. Eu jamais poderia conceber tais seres sobrenaturais passeando na Avenida Paulista, por exemplo, como Vianco imaginou. E não eram os vampiros europeus do século 18 apreciando o carnaval. Estes eram daqui mesmo.

No ano em que prestei vestibular, por obrigatoriedade de leituras, acabei conhecendo Nelsinho, o Vampiro de Curitiba. O taradinho não muito bonito alisando seu bigode e arquitetando chupar o pescocinho das moças virgens da cidade. Este histórico personagem de Dalton Trevisan era o legítimo flâneur da pequena província. Mas antes de continuar, devo me concentrar na tarefa de explicar o que é flâneur. É aquele cosmopolita meio vagabundo, com muito de um voyeur, que perambula pela cidade, aparentemente sem propósito, mas que secretamente busca pequenas aventuras diárias, geralmente eróticas. Ele vagueia inteligentemente pela urbe, sempre olhando com novos olhares os velhos locais já conhecidos – no caso de Nelsinho, os novos olhares se dirigem às mocinhas. Não, o vampiro de Curitiba não participa de nenhuma aventura sobrenatural na calada da noite enfrentando outras criaturas como ele. Ele só possui o lado erótico, poético e errante dos primeiros vampiros românticos, aqueles como Drácula. O pobre Nelsinho não é dotado da beleza daqueles vampiros, mas segundo ele mesmo, é pelo menos simpático.
Eis uma característica dos vampiros que se mostra realmente encantadora. Eles podem-se dar ao luxo da flânerie. Somente durante as noites, – com exceção de Nelsinho – mas podem. Como são oficialmente mortos, não precisam pagar contas, nem se preocupar com o trabalho. Podem estudar apenas como hobby, já que dispõem da inteligência sobrenatural. Dinheiro não lhes é problema, pois grande parte dos sanguessugas saqueia os bolsos dos infelizes de quem bebem todo o sangue. Apesar das desgraças da vida de um vampiro literário, não se pode negar que se trata de uma vida um pouco solitária, mas muito confortável e com suas eventuais aventuras.

Minha descoberta mais recente foi o grupo de discussões na internet Tinta Rubra. São mais de 760 membros, enviando diariamente seus contos, crônicas, livros e poemas envolvendo a temática sobrenatural, e principalmente os vampiros. A lista existe desde 2000, e já foram escritos alguns livros com coletâneas dos principais autores e contos coletivos. Em contato com os mais diversos gêneros literários, é possível se deliciar diariamente com um pouquinho desses vampiros. Já até me arrisquei a enviar as minhas crias: Alexandre, o rapaz de vida simples transformado aos 19 anos na pequena província de Curitiba por uma maravilhosa vampira irlandesa das antigas; Guilherme, o rebelde adormecido por mais de cem anos, preso por inimigos desaparecidos; e a jovem Annie, com ares de uma boneca, transformada aos 16 e adormecida numa lápide no cemitério municipal do São Francisco por mais de 150 anos, por puro tédio.

Quando me bate uma saudadezinha desses seres sobrenaturais, corro para a lista e leio a infinidade de textos enviados por autores de todo o país. É nesses momentos, quando não posso dar-me o luxo de passear pela cidade, sem rumo, na mais legítima e despreocupada flânerie, dou uma lidinha no vampiro mais próximo. Seja ele Drácula, Lestat, Nelsinho ou um das centenas de personagens do Tinta Rubra.

Giulianna Santos é apaixonada por vampiros, formada em Jornalismo pela PUCPR e graduanda de Letras – Francês na UFPR

(L)

“Odi et amo. Quare id faciam, fortasse requiris. Nescio, sed fieri sentio et excrucior”
“Odeio e amo. Talvez me perguntes por que faço isso. Não sei, mas sinto que acontece, e me crucifico.”

Catulo.

Cinc règles si on veut bien vivre em société

  1. Prenez au moins un bain tous les jours. Personne n’aime pas qui est puant(e).
  2. Évitez parler gros mots à qui vous ne connaîssez pas. Personne n’aime pas qui est mal-élévé(e).
  3. Quand vous mangez, vérifiez si votre bouche est fermé. Personne n’aime pas voir votre déjeuner.
  4. Avant de sortir chez vous, demandez à votre mère si vous êtes beau (belle). Personne n’aime pas qui est laid(e).
  5. Faites semblant d’être rich(e). Tout le monde aime qui a beaucoup d’argent.

 

Aos incautos, tradução:

Cinco regras para viver bem em sociedade

  1. Tome pelo menos um banho todos os dias. Ninguém gosta de quem é fedido(a).
  2. Evite falar palavrões a quem você não conhece. Ninguém gosta de gente mal-educada.
  3. Quando comer, verifique se sua boa está fechada. Ninguém gosta de ver seu almoço.
  4. Antes de sair de casa, pergunte a sua mãe se está bonito(a). Ninguém gosta de gente feia.
  5. Finja que é rico. Todos gostam de quem tem bastante dinheiro.

 

Lições para a vida! Uhuaheuaheauehaueh

 

Beijos.

 

Letras num país de não-leitores

O acadêmico de Letras no Brasil tem um grande desafio. Seja sua pretensão tornar-se professor ou pesquisador. Estatísticas apontam que apenas um em cada três adultos alfabetizados lê livros, e o brasileiro médio lê 1,8 livros não-acadêmicos por ano, segundo artigo publicado na revista britânica “The Economist”, em março de 2006. Não faltam boas iniciativas de ONGs e am alguns casos até do governo, mas boa vontade não basta. O gosto pela leitura deve vir de casa, ou da escola, de onde geralmente vem apenas a obrigação. A sociedade atual e suas referências estão se tornando cada vez mais simplificadas e imagéticas, numa avalanche de informações cheia de figuras em movimento. O hábito de leitura não é preservado nem em casa, pelos pais, que escondem os pouquíssimos livros em armários sujos e inacessíveis. Entretenimento é a televisão, o cinema, um videogame ou no máximo o computador. Como os livros podem competir com tanta tecnologia e tantas imagens? Eis o desafio inicial da academia de Letras num país que abandonou (ou nunca apreciou?) os livros.

Giulianna Santos é caloura de Letras Francês na Universidade Federal do Paraná

Bolhas nonsense

0 o O o 0 0 “Nós da Ocupa 13 estamos engajados…” (leia em voz alta)

o 0 O O 0 o o O “Jornalismo é a maior ilusão que existe”

O 0 o o O “Se todas as coisas boas durassem para sempre, você saberia o quanto são importantes?”

0 o O 0 0 o o “Não faço o bem, me ocupo em me isentar de fazer o mal”

o 0 o 0 O O 0 o “Você é um ovo! Um bolha!”

O 0 0 o o o O “Tem sempre alguém que se submete”

0 o o O O o “Não me importo em não ter ética se for bem paga”

o O 0 0 o “Estou disposta a ser convencida”

0 0 o O “Tem sempre um idiota novo pra uma piada velha”