Palavras

Ter como fonte de descarrego a mesma fonte de trabalho é um tanto complicado. Minha fonte são as palavras, eu sou toda palavras, minha alma é toda cravejada de palavras brilhantes.
Oras, meu corpo pesa com as palavras, outras, ele flutua como nuvens de algodão.
Eu sou toda palavras. Eu sou intensa, uma enxurrada de sentimentos, um dilúvio de palavras. Paixão, saudade, remorso, carinho, receio, ansiedade, tudo misturado, flutuando numa imensa nuvem de tags.
Minha alegria vem através de palavras, brilhantes, alvas, saltitantes. O meu amor, através de palavras doces, suaves, cantadas. A tristeza se arrasta em palavras roucas, miúdas, encolhidas. E a raiva sai faiscando em palavras ardidas e cheias de farpas.
Filtro tudo e transformo em palavras polidas, escolhidas, limpas, é o meu ganha-pão.
As palavras mais intensas, de tão negligenciadas pela assiedade do trabalho, ficam escondidinhas na garganta, até serem vomitadas numa página de blog.

A angustiante condição feminina em Syngué Sabour

Através da angústia de uma mulher que cuida do marido em coma, Atiq Rahimi leva seus leitores a um universo de agonias, silêncios e submissão feminina, em uma época e localidade indefinidas, mas que não deixam de ser atuais, em Syngué Sabour – pedra-de-paciência.

A mulher, personagem que protagoniza a obra toda, sem nome definido, alimenta, limpa, troca e reza pelo seu homem, em torpor catatônico em um cenário de pobreza e de guerra. A linearidade do texto não se define por dias e horas, ela gira em torno de respirações, voltas de terço, rotinas e orações.

A obra começa com um ritmo lento, pausado, ritmado, como as respirações do homem. As pausas frequentes na narrativa, com espaços em branco entre os parágrafos, colaboram para essa impressão. Já nos trechos mais intensos, as pausas ocorrem menos e os parágrafos são longos blocos, que prendem o leitor até a próxima parada. Atiq Rahimi dá ao leitor tempo para respirar entre os fatos, refletir, digerir.

Assim como a bolsa de perfusão que libera lentamennte soro para o homem, com uma linguagem simples e polida, Rahimi libera as palavras, contorna o cenário, a tradição do local, a condição feminina, como gotas.

Mesmo para o leitor que não conhecer a cultura na qual a história se passa, a rotina de cuidado que a mulher tem com o marido, sistemática e repetitiva, na narrativa calma e detalhada, repleta de pausas e silêncios propositais, reflete bem o contexto das mulheres como a protagonista.

Os pequenos rituais se repetem, de forma cansativa e repetitiva, mas sempre diferente. Tomada pelo desespero de ver que seu marido não volta a ter consciência, a mulher começa a transformá-lo em seu confidente, e contar a ele coisas que jamais ousaria falar.

Capa do livro

Capa da edição brasileira de Syngué Sabour - Pedra-de-paciência

Seu marido, ao se tornar sua pedra de paciência, ou como ela diz, sua syngué sabour, passa a fazer parte de um ritual diferente, além de limpá-lo, pingar colírio em seus olhos e alimentá-lo com soro, ela conta a ele todos os seus segredos mais atormentadores, relacionados ou não ao casamento. Através de revelações de segredos da sua vida, histórias populares, lembranças da breve vida com o marido, a mulher desvenda um mundo amargo de submissão e escuridão, pelo qual transitam todas as mulheres de seu país.

A fragilidade da narrativa, quando relacionada à sexualidade, mostrando a vergonha e o segredo, refletem uma sociedade de tabus e estigmas, sobretudo no que diz respeito à feminilidade e ao corpo e prazer da mulher.

A repetitividade dos fatos, com detalhes acrescentados, dão à narrativa um caráter de progressividade, são acontecimentos cíclicos. A cada dia a mulher revela novos segredos, sua personalidade ganha contornos, sua história fica clara e é quase possível ver seu rosto por baixo da burca.

O final da pedra-de-paciência é tão misterioso quanto o final da fábula que a avó da mulher contava, e como refletia seu sogro: “Para que tenha um final feliz, minha filha, a história exige um sacrifício, como na vida”. E assim como a pedra-de-paciência, a história segue uma cadência, um ciclo, até finalmente estourar.

Giulianna Oliveira Santos é jornalista e gosta de fingir ser crítica literária nas horas vagas.

Atiq Rahimi

Atiq Rahimi gatinho, né?

RAHIMI, Atiq. Syngué-Sabour: pedra-de-paciência. São Paulo. Estação Liberdade, 2009.

Joia

Naquela noite quente, cheguei em casa sem tirar os sapatos que apertavam meus pés e sem tirar a pesada bolsa cheia de cacarecos do ombro. Corri para aquele lugar secreto, onde eu não mexia há anos.
Abri as caixas dos meus relacionamentos anteriores, escondidas, lacradas, intactas. Que não me lembro, mas que provavelmente guardei aos soluços, com olhos de orvalho, esperando enterrar também as lembranças que não podiam ser apagadas com meia dúzia de taças de vinho barato.
Esperanças e promessas adolescentes, cartas, poemas, presentes, fotografias amareladas de rostos quase estranhos, mas que nunca tive coragem de jogar fora.
Envelhecidos, riscados, amarelos, jaziam ali no meio aqueles anéis de prata que tantas mulheres se orgulham de carregar na mão direita. E que provavelmente também foram motivo de orgulho para meus dedos outrora mais magros do que o são hoje.
Impossível não observar os aneis velhos e manchados, com os nomes gravados na prata, enegrecidos e não relembrar tudo.
E impossível não olhar o novo, brilhando, sem riscos e desejar que o seu fim não seja igual. Que não seja guardado e escondido por anos numa caixa escondida. A não ser que seja trocado por outro. hehe.

Da auto traição

Nós, mortais, vivemos numa cúpula permeada de desculpas. Quase todas para nós mesmos. Quando faltamos para com alguém, antes de qualquer tentativa justificativa para o outro, elaboramos, revisamos, lapidamos uma desculpa para nós mesmos. Porque a cúpula não pode se quebrar.
Porque a juíza implacável dos nossos atos é a nossa consciência. Ela sim, onipresente, onisciente e onifodalhona. Sempre ali, de olho aberto cobrando providências.
E como ela é muito ágil, sempre bom estar com a desculpinha ali, polida e revisada na ponta da língua. Os outros depois, antes de tudo a nossa consciência.
E quando a gente a trai? Putz! “Hoje estou cansado, mereço dormir mais meia hora”. Há poucos que conseguem ignorá-la e traí-la sem que ela fique pesada. Artistas da própria enganação.
Que assine aqui embaixo aquele que se permite, se deleita, se mima, vez ou outra. “Eu me traio”, assuma.
E que antes mesmo de consumar a auto traição, traça um plano de fuga onde pode se justificar sem se engasgar no primeiro questionamento mais incisivo. Afinal, é para nós mesmos que nos justificamos e ponto.

Le Clézio – O Africano

Ou resenha que gostei de fazer. A resenha que fiz, d’O Amante, ganhou da professora um “Muito Bom! Merece ser aprofundado!” =D

Aquele que se aventura na leitura de “O Africano”, de Le Clézio, embarca numa viagem de sensações intensas pelas terras africanas. Para introduzir o leitor na temática do enredo, ele conta lembranças de sua infância morando em uma casa em Ogoja, com os pais. Mas esse começo autobiográfico só serve como introdutório, pois o livro se trata de seu pai, cuja história dá título à obra.

O tempo passado pelo autor na casa na Nigéria é uma narrativa forte, cheia de imagens marcantes de situações vividas. Não pela riqueza de detalhes, mas pela forma como a descrição crua e dinâmica se costura com o enredo. Le Clézio foge do lugar comum dos autores europeus da época que tratam das terras africanas, ele mesmo cita alguns. A infância é ressaltada puramente como experiência de sensações, sem impressões sociais profundas.

O autor narra suas aventuras pelas florestas de Ogoja, com os meninos africanos, as sensações das brincadeiras e das correrias pelas matas. Não se trata de algo extraordinário, são crianças, brincam, correm, gritam e pouco falam. E justamente por não se tratar de algo extraordinário é que essa narrativa fascina tanto, são lembranças cruas, intensas, verdadeiras.

E as sensações que Le Clézio relata das épocas vividas na Nigéria, apesar de serem poucas, servem como base para todo o resto do livro, pois todas as impressões que ele teve da África mais tarde, para conhecer melhor seu pai, possuem como base primária as tardes ensolaradas, as noites abafadas e as tempestades violentas de sua infância.

Le Clézio narra, em seguida, a saga de seu pai nas terras estrangeiras após ele e sua mãe terem que retornar à Europa para o nascimento de seu irmão mais novo. Das tentativas frustradas de seu pai de reencontrar sua família, e da amargura que foi criando nos anos passados longe até a estranheza do convívio tardio na Europa.

A ruptura final acontece quando o autor desvincula de seu texto conceitos como exoticidade e nostalgia, para agradecer ao pai, de certa forma, sua ligação tão forte com a África, sua essência, o que acaba amarrando, inevitavelmente toda a obra e a personalidade literária do autor. Ele guarda, mesmo que não tenha presenciado, os tempos felizes em que seus pais viveram em Camarões, principalmente porque acredita ter sido concebido em meio à essa felicidade.

Giulianna Santos, outubro de 2009.

Do concreto e do efêmero

Folheio e editoria policial do jornal, repleta de números e nomes. Não são mais rostos, não são mais histórias. São um nome, uma idade, um punhado de palavras impressas na folha cinza e apática.
No centro da cidade, engravatados esticam o pescoço para olhar de soslaio a tragédia do senhor suicida. Imagino que tipo de pensamentos lhe ocorrem. A sociedade tem um gosto estranho pela desgraça.
Há quem se lembre daquele parente que há pouco faleceu. Vai lembrar da foto amassada guardada na gaveta, ou da câmera não chegou à tempo de eternizar a imagem da pessoa. Eternizar? É tão efêmero viver.
Todas as manhãs a cidade vomita nomes para os mortuários. Nomes, números, profissões, rostos amarelhos e olhos opacos, que engrossam as tristes estatísticas da pós-modernidade.
E na rua cinzenta e fétida da metrópole, os transeuntes comentam a trivialidade da catástrofe, envoltos no seu manto de afazeres. Não, não foi uma flor que nasceu no asfalto, para quebrar o tédio, a náusea e o nojo.
Foi um homem morto no meio do asfalto. Não se percebe seu nome, sua idade, sua profissão, é apenas um corpo amarelo no meio da imensidão cosmopolita. E tornou mais intensa a onda de ódio, tédio, náusea e nojo.
Fizeram sim, completo silêncio, pararam o comércio, passaram de longe ônibus e carros.
Fizeram silêncio para contemplar a tragédia de mais um sem nome arrastado para as apáticas folhas cinzas do jornal.

O Amante – M. Duras

Giulianna também é cultura, pessoal! Pega essa!

Marguerite Duras – O Amante

A leitura de “O Amante” de Marguerite Duras não é uma leitura fácil. A narrativa, que alterna entre primeira e terceira pessoa do singular, ora no passado, ora no presente, é fragmentada e alusiva. Mas ao mesmo tempo em que é uma leitura não tão fácil, é magnética para o leitor, graças à construção gradual que a autora faz das imagens e das situações.
É possível notar que tanto a construção psicológica quanto visual das personagens é feita de forma progressiva, a partir das situações que são narradas. A autora delineia as imagens de forma sutil, subjetiva, para ir dando pinceladas mais decisivas ao longo da narrativa. Mas ao mesmo tempo em que ela utiliza esse recurso, o texto não possui uma linearidade definida. Saltos de tempo são utilizados para relacionar ações anteriores e posteriores no decorrer da narrativa que seria presente. E esse recurso reforça a subjetividade das imagens.
A escrita de Marguerite Duras é como uma memória intensa, violenta. Com alguns lapsos e esquecimento de detalhes, mas também com uso de imagens fortes, de fatos marcantes, objetos que se repetem, alusões sinestésicas, relações inusitadas que vão ficando mais evidentes no decorrer do texto.
A imagem inicial da menina na balsa e de sua roupa peculiar é uma referência frequente na narrativa. E a cada vez que a imagem se repete, a autora denota mais significados para essa referência tão repetida da roupa. Da miséria da família, dos traços de cada membro da família em cada peça, do comportamento escandaloso da menina, da sexualidade precoce. O conjunto da roupa é, na verdade, uma materialização da personalidade da personagem. E conforme é descrita a conduta da menina, a roupa se torna seu estigma.
A relação que ela tem com o chinês também é apresentada de forma cíclica, é conturbada, repetitiva, conformista. As cenas dentro da garçonnière se repetem de forma ritualística, intensa e sofrida. Ela sofre com seu vazio e o chinês sofre pelo amor que sente por ela, aparentemente não correspondido. Ela leva para o leito com o homem suas frustrações com sua mãe e se projeta como sua filha.
E alguns fatos dispersos entre a linha narrativa geram pontos de interrogação. O filho nascido morto é citado de forma sutil e superficial, assim como a morte do irmão mais moço, relacionada com um engano. Ambos os fatos e sua relação com os acontecimentos em andamento podem adquirir interpretações diversas. A interpretação geral da obra se dá de forma cíclica, conforme ela remonta algumas cenas similares e reafirma situações: as conversas com a mãe, os encontros com o chinês, a imagem da jovem e sua roupa peculiar. Tudo forma um conjunto de fatos que ligados delineiam o tema central, o amante.

Giulianna Santos – setembro de 2009.

Esta que vos escreve.

Esta que vos escreve.

Se você viu a foto e duvidou que eu li o livro, comente!

Tudo por causa da … vadiagem!

Vim aqui para fazer uma espécie de defesa. Vou ser minha própria advogada, se assim preferem.
Só estou querendo ser feliz. É sério, não quero machucar ninguém.
Eu gosto de todos, cada um com seu jeitinho, com sua personalidade, seu perfume, suas mãos.
Eu gosto de ver seus sorrisos quando encontram meus olhos. Gosto quando beijam meu rosto e acariciam meu cabelo. Gosto do abraço.
Eu me afundo em prantos quando me esquecem. Sim, cada um.
Jamais fui negligente e sempre dei segundas chances àqueles que não foram tão legais.
Pelo menos alguma vez, cada um esteve no meu pensamento quando sozinha, esbocei um riso tímido lembrando de algum momento ou palavra.
Talvez vão pensar que uso-os para alimentar meu ego. Talvez seja um pouco disso, mas muito pouco.
Eu sou uma amante verdadeira. Verdadeira porque não sou uma casca de prazer, porque tenho sentimentos e sempre faço bom uso deles.
Eu gosto, eu tenho carinho, eu me lembro, eu escrevo, eu rio, eu choro.
Eu sou uma amante verdadeira. Desprezada.

Do remorso e do silêncio compartilhado

Você percebe que gosta realmente de uma pessoa quando sente uma espécie de remorso por não tê-la conhecido antes. Não antes dois ou três meses antes. Antes quando ela aprendeu a falar, quando conseguiu escrever o nome pela primeira vez, quando quebrou o braço na 4ª série e na pior fase de sua adolescência.
É como se você se culpasse por ter perdido o que poderia ter passado junto à pessoa. Óbvio que você não poderia passar, mas uma estranha culpa o domina por ter estado longe.
Quando se encontra (ou se reencontra) uma pessoa amada, a impressão que se tem é que o tempo que se passou longe é irreparável. De fato, é. Nada vai acontecer de novo, se acontecer, não será igual.
E também porque se muda quando se conhece a pessoa amada. Supondo que você poderia ter conhecido, mas jamais a veria como você a vê hoje, pois ainda não a conheceria do jeito que a conhece a ponto de ter mudado sua personalidade.
É quando acontece aquele estalo. Aquele estalo que te muda. Que te faz perder o chão. É quando você consegue compartilhar o silêncio com alguém, sem necessidade de falar qualquer besteira para quebrar o silêncio. Mas ao mesmo tempo, os olhos trocam centenas de palavras.
Você vai pensar que escrevi isso para alguém. Que consigo compartilhar o silêncio com alguém. Já fui capaz. Com alguéns. O mesmo nada que era o antes se tornou o depois. Compartilho silêncio com meus algozes.

Meia-noite está se tornando minha hora da inspiração.

Ceticismo

Aquela, como outras noites daquele ano, era uma imagem que merecia ser fotografada. Mas que ninguém fotografou. Colocou aquele vestido de cetim lilás, aquele que adora. E que mancha só de olhar. Lavou e passou com cuidado para que ele ficasse impecável. Deixou o cabelo perfeito, pintou as unhas e se perfumou.
Destruíram tudo e afundaram num pouco d’água com clonazepam.
Aquela outra também. Trazia boas notícias e vestia seu novo casaco xadrez, que deixa com cara de responsável, um sorriso e um perfume barato. Bastaram algumas palavras e cervejas para que o dilúvio levasse o rímel embora. Sorte que não foi fotografada.
Não tem encanto que sobreviva.
Junta os seus pedaços e se monta com uma casca bonita. Não morde nenhuma das iscas que lançam, só belisca com medo que o anzol lhe corte os lábios enfeitados de batom. Não esconde que os véus fazem-na soluçar pela alegria alheia. É comum da sua natureza.
Olha sozinha os braços sem adornos. Não, não há mais nada que impressione.

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